Os menos jovens lembram-se do Henrique de Souza Filho, o Henfil, que, entre muitos personagens de suas charges, celebrizou-se pela criação dos Fradins, sendo o Baixim um sádico virulento a serviço da ira do seu autor. Face à realidade nacional, incorporei, em dobro, a virulência do Baixim e vivo em estado permanente de náusea.
Minha última coluna, “Sem comentários”, provocou muitos comentários de leitores amigos e, até, de desconhecidos. Um deles, de caríssimo amigo, alertou-me, pois o alvo maior da minha náusea e ira, em ano eleitoral, pode parecer que, “auto-aposentado” da política de varejo, eu tenha resolvido faturar uns “frilas” nas próximas eleições, ou pior, ser cabo eleitoral de um pretendente ao trono. Nada mais falso. Estou em estado de nojo absoluto.
As denúncias do “mensalão”; um juiz dando liberdade a Paulo Salim Maluf; a absolvição na Câmara Federal de deputados comprometidos com a decência; e o escândalo das ambulâncias superfaturadas transformaram-me num troglodita armado de um tacape gigantesco e levaram-me à luta em defesa da ética. Enquanto a ética não tem siglas, os criminosos têm nome e sobrenome. A ética dispensa outras motivações ou segundas intenções. A ética está acima de ideologias e de partidos políticos.
Estou um irado, babando ódio e clamando por uma reprise de Sodoma e Gomorra, um banho de sangue, linchamentos, corpos decapitados e pendurados nos postes. Só conheço, na história da escravatura negra, uma única resposta à altura: no Haiti, todos os brancos que não conseguiram fugir foram mortos. Todos. Há uma pocilga aqui merecendo ventura igual.
Este e-mail recebido fez-me perceber que eu estava dando motivos para a suposição de estar fazendo jogo eleitoral e gerou a crônica de hoje: “Adoro suas saborosíssimas crônicas, mas contesto aqui ou ali algumas posições políticas de meus articulistas prediletos. E nesta temporada estou contestando os que, mesmo bem intencionados, parecem assinar embaixo dos textos e objetivos de Jorge Bornhausen. Alguns estão na sua montagem de hoje. Abraços, Roberto”.
Respondi (apenas com algumas modificações para evitar processos e esclarecer melhor os leitores):
“Caríssimo:
Há muito, mesmo em política, não comparo.
No caso do Bornhausen, por exemplo, não me interesso de onde vem a acusação. Assim como quando se trata de acusar criminosos, não me importo se o acusador é criminoso, também.
Gostaria, e muito, que essa tropa toda fosse fuzilada.
Quanto ao Lula, acho despudor total usar Zé Dirceu, criminalmente indiciado, como um dos articuladores de sua reeleição. E não consigo mais digerir ignorância tão compacta saindo da boca de um falastrão. Não sou elitista, convivo bem com ignorâncias mais discretas.
Quanto aos Bornhausen da vida (que os Diabo os tenha), creio que quem vota com eles jamais será furtado em sua esperança, ao contrário desse povo que embarcou com Jânio; foi torturado pelos milicos; padeceu com o Plano Cruzado e com os “cinco anos” de Sarney que terminaram numa inflação de mais de 70%; foi tungado pela Zélia e espoliado com Collor; sofreu com a discrição das privatizações e a “reeleição” de FH e embarcou na ignorância e no assalto a que assistimos agora e que, parece, inclui assassinatos de prefeitos.
A posse de Lula foi uma apoteose cívica. E agora, José?
Este descrente total ficou sem qualquer opção política. Só posso gritar contra tudo que fede, sem menores e maiores comparações, sem contabilizar posições eleitoreiras. Tão radical que nem dá para ser anarquista.
Lembrei-me que, certa vez, um cidadão de baixo nível, não se conformando com a minha postura agnóstica, argumentava-me sobre a cabal existência de Deus. Já de saco cheio, interrompi:
– Você tem razão, Deus existe e eu sou contra.
Roberto, seu e-mail tem um sentido positivo, pois prova que você tem esperança.
O seu amigo, perdeu-a.
Abração.
Mario”.
Não estou sozinho. De antigo colega e amigo, engenheiro Pellegrino, de São Paulo, recebi:
“Prezado colega e amigo Mário:
Grato pela Coletiva.
Se servir de consolo, Mario amigo, aceite a lição que já aprendi de há muito: aqui no Brasil, jamais leve fé em político algum, nem de esquerda e nem de direita. Talvez de centro, se surgir algum, um dia.
Abraços.
Pellegrino.”
Para não dizer que não falei das flores, a charge é idéia minha realizada pelo artista Ivan Carneiro.
Inté.


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