Está circulando na Internet um e-mail sobre as virtudes brasileiras – que não são poucas – e que poderiam, pelo espírito, ser assinadas em 1901 por Afonso Celso, autor de “Porque me ufano do meu País”.
Não desconheço a liderança brasileira em muitos segmentos de atividades, como, por exemplo, o know how de prospecção de petróleo em águas profundas e muitas atividades pioneiras em áreas científicas.
Sei, também, que ninguém escolhe onde nascer e pertenço àquela minoria que destinada ao terceiro mundo sabe que perdeu na loteria do imponderável. Por ser brasileiro, aprendi com Rui Barbosa, desde jovem, em sua “Oração aos Moços”, que “a pátria é a família amplificada”, o que me transformou num patriota, mas não num caolho.
Respondi aos amigos, pela Internet, que o dia em que, percentualmente, o Brasil tiver apenas – somente – o dobro de analfabetos que a Argentina (hoje tem cerca de cinco vezes mais) eu vou começar a mudar minha ótica sobre este recanto do terceiro mundo cheio de bolsões de miséria absoluta.
Estava eu, em busca de um assunto para esta crônica, abri o jornal e ele estava lá: “A OAB gaúcha denuncia 68 casos de nepotismo cruzado entre o Tribunal de Justiça, o Ministério Público e o Tribunal de Contas do Estado”. O compadrismo funciona mais ou menos assim: tu admites minha mulher aí contigo e eu admito teu filho aqui comigo. O que mais assusta no fato desse troca-troca imoral é as três instituições serem da Justiça. Não é negócio entre bicheiros, contraventores, delinqüentes, estelionatários ou periféricos, são provas juntadas pelo Sindicato dos Servidores do Ministério Público do Rio Grande do Sul, que envolvem, em sua maioria, o pessoal da toga.
Ainda jovem, li inúmeras vezes que Pero Vaz de Caminha, em sua célebre carta de 1º de maio de 1500 a El Rei Dom Manuel escreveu, referindo-se à nossa terra, “que em se plantando tudo dá”. Não sei quem foi o gênio que transformou o trecho da carta num telegrama, repetido milhões de vezes através de séculos, pois o que Caminha de fato escreveu a respeito de nossas terras foi “Águas são muitas; infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem”. O próprio Caminha, naquela carta, com mais de 40 mil palavras, inaugurou em terras brasileiras o nepotismo herdado, agora de forma imoral, pelo pessoal da toga: “Peço que, por me fazer graça especial, mande vir da ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro – o que dela receberei em muita mercê. Beijo as mãos de Vossa Alteza”.
Sou patriota, já disse e, dependendo da ótica, os jornais vêm dando motivos de alegria aos ufanistas da Internet. Os britânicos, conhecidos pela sua discrição e bom gosto, consideram que as mulheres brasileiras são lindas, coisa que eu concordo e, por isso, eles, em troca de favores, dão prolongados vistos de permanência às mesmas. Outra alegria: o Brasil deu banho de antecipação nos gringos americanos, agora boquiabertos com as provas de grande corrupção envolvendo congressistas republicanos. O Jefferson deles é o lobista Jack Abramoff. No interior da França, num trem, cerca de 100 jovens embriagados, provavelmente após estágio nas praias do Rio, resolveram imitar nossos pivetes e fizeram um “arrastão”, criação carioquíssima. Cidades da Califórnia, face às chuvas, estão com problemas de enchentes, o que não é exclusividade deles. Há anos, dei de presente a um amigo, cidadão de Blumenau, uma monografia sobre sua cidade natal. Blumenau foi o médico que comandou a caravana de colonização daquela região quando um dos membros do grupo, depois de colocar o dedo na terra e levá-lo à boca, não quis fixar-se lá, denunciando que era uma região propensa a enchentes. Ninguém acreditou…
Nesta sexta-feira, Dia de Reis, data em que antiga tradição mandava comer romã, jornais do Rio informam que um major e um cabo da PM, com milhões nos bancos, foram afastados por suspeita de homicídios e lavagem de dinheiro da máfia dos caça-níqueis.
Patriota sim, caolho não.
Inté.
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PS. O ex-presidente do Equador – Lucio Gutiérrez – está preso desde outubro. No Equador não há juiz piedoso como o ministro Antonio Velozo e a sorte dos Maluf é não terem roubado lá.

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