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Sueltos

O vocábulo espanhol suelto, usado na imprensa brasileira como notícia solta, pequena, acho que deixou de ser usado assim que nasci. Acabo de falar …

Dia 27 de setembro é dia de São Miguel e foi nessa data que nasceu em Alcalá de Henares, Espanha, provavelmente em 1547, Miguel de Cervantes Saavedra. E, há exatos 400 anos, os primeiros capítulos de Dom Quixote de la Mancha começaram a ganhar notoriedade em Madri. Hoje, “Dom Quixote” é considerada a obra mais importante da literatura ocidental de todos os tempos.

Tenho uma história, aliás três, histórias pessoais com o Dom Quixote. Analfabeto total, com menos de três anos, encantei-me com um livro de luxo, capa dura envolvida em veludo vermelho, com alguns capítulos a cores, ilustrados por Gustavo Doré, alsaciano que, ao morrer em Paris, deixou uma herança de 50.000 ilustrações, entre as quais milhares para obras-primas, como a “Divina Comédia”, de Dante. Aquele exemplar do Dom Quixote, de meu pai, cujas páginas eu quase decorei o visual, foi meu primeiro alumbramento. O segundo, foi igual ao do Manuel Bandeira, uma mulher nuinha.

A segunda história é que a caminho de Córdoba e Sevilha, há uns dez anos, em “la Mancha”, tomei uma copa de vinho numa estalagem que, invenção turística ou real, Cervantes ordenou Dom Quixote cavaleiro, num dos seus muitos capítulos.

A terceira história aconteceu em Madri, numa dessas feiras dominicais onde se vende de tudo. Encontrei uma edição completa do “cavaleiro de triste figura”, ilustrada por Gustave Doré. Dei-a de presente à minha filha e jornalista, Rachel, que se queixou de não saber o suficiente de espanhol para uma boa degustação.

Vale a pena aprender, ler Cervantes e a recém-lançada antologia de Antonio Machado que comprei em Granada – disse-lhe eu.

Confesso que me deu vontade de digitar um “Inté”, mas percebi que a crônica ainda não estava de bom tamanho e lembrei-me que lendo o Fraga em Coletiva, gostei dessa pérola, “capão no campo é uma ilha verde cercada de agronegócios por todos os lados”. Não me contive e emendei de primeira: Capão da cintura para baixo não tem negócio na frente. 

E já que o Millôr ensinou que “pensar é só pensar”, pensemos:

Pela sede que estão indo ao pote, a Fome Zero virou Apetite Mil.

São tantos os que estão se queixando da situação ao bispo que ele está cobrando hora-extra.

Einstein divulgou a Teoria da Relatividade sem avisar que a honestidade estava incluída.

Durante séculos, a corrupção que veio com as caravelas foi varrida para baixo do tapete. Agora faltou tapete.

Na dúvida se sou eu ou o país que está de porre, uma certeza: a ressaca será homérica.

Se o ébrio for este colunista, resta repetir Drummond: Eu não devia te dizer, mas esse conhaque, mas essa lua, botam a gente comovido como o quê.

Depois de 40 anos, conseguiram tirar a máscara do maior cara-de-pau deste país: Paulo Salim Maluf. Agora, já escrachado como ladrão, se voltar para casa só pode comer pizza na base do delivery. Em público, arrisca a ser esquartejado e dependurado num poste de iluminação pública, poste super-faturado, é claro. Seria uma morte igual e tão comemorada como a de Benito Mussolini, para citar apenas um canalha.

A segunda melhor coisa da vida – viajar – só depende de dinheiro. Na primeira, só não pode entrar dinheiro. 

Inté.

Autor

Mario de Almeida

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