Por ocasião da Eco Rio, em 1992, vendi um projeto para a Rede Globo, no valor de US$30,000.00 que, por circunstâncias de mercado, a Globo não o implantou.
Idealizei, no local onde há o Projac, um espaço cujo módulo principal seria uma casa com muitas formas de utilizar energia natural. Água quente, por captação solar, coisa que eu, inclusive, usava na minha casa, captação de água pluvial, TV e fogão também funcionando por energia solar, cataventos e outras formas de energia eólica, monjolo, “roda d”água”, horta orgânica e muitas outras coisas. A maquete tinha o mesmo tamanho de uma mesa de pingue-pongue e era assinada por Cyro del Nero, antecessor de Hans Donner nas “aberturas” da Globo e hoje mestre de cenografia na USP. A idéia era fazer daquele espaço uma escola viva de ecologia, com visitação escolar permanente, de segunda a sexta e visitação pública nos feriados e aos sábados e domingos.
Fui à cata de ensinamentos na UFRJ para desenvolver o projeto e estive, também, com o arquiteto Flávio Farah, no Instituto Paulista de Tecnologia, no campus da USP, onde, entre muitas curiosidades, vi o modelo de uma descarga de vaso sanitário para conjuntos habitacionais com um consumo econômico de água, coisa na ordem de 3 litros, menos que 30% do consumo convencional. Aquilo que nós usamos apenas em conjuntos populares, na Suécia, por exemplo, é o convencional. No Japão, o assunto água é quase uma religião e a economia é radical, do banho a todos os outros usos.
Anos antes da Eco Rio, li em O Globo um artigo sobre um professor universitário norte-americano que, a partir da informação que 70% da madeira utilizada na África era para cozinhar alimentos – sendo aquele um continente “quente”, – inventou um fogão que funciona à base dos raios solares. A matéria trazia um desenho do fogão e a explicação, extremamente simples, de sua montagem e funcionamento. Meu interesse pelo assunto, ainda que amador, fez-me recortar a matéria e guardá-la, junto com outros documentos sobre ecologia. Esse fogão acabou entrando no meu projeto. Quando fui ao Aterro do Flamengo, por ocasião da expo da Eco Rio, encontrei o professor, num dos caminhos, defronte à sua criação. Confesso que tive que dar um tempo para esconder a emoção, antes de bater um papo com aquele missionário da ecologia.
Meses antes, ainda em 1991, quando da apresentação da maquete à direção da Rede Globo, Roberto Marinho à frente, depois que terminei a explanação, ele indagou qual era, em síntese, o objetivo do projeto.
Expliquei que as tribos indígenas que habitavam a região do Vale do Paraíba, parte, hoje, dos estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, assim que o calor se aproximava, começavam a descer para as praias da região de Parati, Angra dos Reis e proximidades. Essas viagens, feitas a pé, demoravam um bom tempo e os índios criavam roças de milho em trechos do percurso. Nenhum índio comia do milho plantado por si mesmo, pois eles plantavam e prosseguiam viagem. Havia um permanente plantio e cada grupo que chegava a um roçado, alimentava-se e semeava um novo milharal. Expliquei ao dr. Roberto que a intenção do projeto era ajudar – um mínimo que fosse – o brasileiro de hoje recobrar um pouco da civilização perdida.
Naquela ocasião eu já carregava 60 anos e o dr. Roberto, sempre muito gentil, ao despedir-se cumprimentou-me efusivamente, finalizando com um
– Belo trabalho, rapaz!
– O senhor é um dos poucos que ainda podem me chamar de rapaz.
Ganhei um belo sorriso daquele jovem de 87 anos.
Inté.

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