No dia 26 de junho de 1968, a carioquísssima Avenida Rio Branco, no Rio, foi o palco da maior passeata feita no país contra a maior ditadura deste país. Entrou na História como a passeata dos 100 mil.
O que pouquíssimas pessoas entenderam foi o motivo pelo qual um grupo de jornalistas e artistas, entre os quais meu amigo/irmão Flávio Rangel, de braços dados, ao passar defronte à agência do extinto Banco Nacional, gritava, em coro: Juarez, Juarez, Juarez. Certamente não seria Juarez Távora, ex-candidato à presidência da República e ex-ministro de Castelo Branco.
A leitura de alguns artigos aqui em Coletiva me fez lembrar de algumas jogadas de marketing e de propaganda que presenciei e outras que vivi.
Quando José Magalhães Lins – o mesmo que batizou e financiou o legendário “Antonio”s – dirigiu o Banco Nacional, criou alguns lances de marketing absolutamente inovadores, como, por exemplo: “Direto ao Caixa”. Aos menos idosos, explico: quase final da década de 1960, ia-se ao banco descontar um cheque, entregava-se o referido no balcão, recebia-se uma ficha (senha) e aguardava-se alguns poucos ou muitos minutos até ser chamado pelo caixa. Então, apanhava-se o dinheiro.
O tal Juarez era gerente do Nacional na Rio Branco e peça importantíssima num bem articulado e sucedido caso de marketing. Foi soprado nos ouvidos de jornalistas de prestígio que o Nacional estava facilitando empréstimos para a classe. Sensível à abertura dos cofres, o pessoal apresentou-se com avalistas e garantias, submetendo-se aos juros normais, coisa pouca na época. Ao mesmo tempo, o Nacional abriu crédito para compradores de obras de arte, em convênio com galerias. O banco pagava cash às galerias e recebia, em até 10 prestações, o valor do adiantamento. Foi também soprado nos ouvidos de produtores de cinema que o banco estava financiando filmes. Pronto! A indústria do release não parou mais de funcionar e encontrou nos jornalistas uma simpática, efetiva e afetiva disposição para noticiar, coisa raríssima, financiamento às artes. Pela sugestiva amostra de personalidades gritando Juarez, Juarez, Juarez, dava para sentir que era enorme o varal onde se penduravam os “papagaios”, quase sempre renovados de três em três meses, mediante o pagamento somente dos juros.
Eu era contato publicitário, em 1966, e atendia a uma corretora de valores que tomava e emprestava dinheiro na praça do Rio. O empresário chamou-me, lá pelo mês de outubro, para pedir um anúncio oferecendo às empresas numerário para pagar o 13% salário. Ele foi enfático ao solicitar um anúncio muito objetivo e simples, com passagem muito rápida pela Direção de Arte.
Encaminhei o pedido à criação da agência, pedindo dois layouts, um conforme queria o freguês e outro conforme a gente queria sugerir. A vaidade fez da segunda opção uma obra de arte, devidamente apreciada pelo cliente que fez questão de pedir que, em seu nome, congratulasse os criadores. Para minha estupefação, depois de aprovar o plano de veiculação (não consigo escrever “mídia”), disse-me que programasse o outro, um “mecânico”, ou seja, apenas uma marcação para a produção do anúncio nos próprios jornais.
O “freguês”, certamente sensível à minha reação de espanto, abriu o jogo e me deu uma aulinha de propaganda mentirosa, tipo “as aparências enganam”: – Ora, Mario, não vou financiar ninguém, mas esse anúncio dá credibilidade à empresa, coisa necessária para eu alavancar dinheiro no mercado.
Anos depois, eu soube que estavam acontecendo negociações supersigilosas para a contratação, para ser meu companheiro de trabalho, de um profissional com quem eu não gostaria de trabalhar. Por ser ultra-sigilosa, consegui que um colunista amigo desse uma nota sobre a contratação, coisa que, é claro, a nota abortou…
Bem, aí acho que não foi marketing nem propaganda, foi safadeza mesmo.
Inté.

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