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Fim de papo

Era Carnaval e era 1955. Uma pequena mala e eu desembarcamos de um ônibus da Viação Cometa, vindo de São Paulo, na antiga rodoviária, …

Era Carnaval e era 1955. Uma pequena mala e eu desembarcamos de um ônibus da Viação Cometa, vindo de São Paulo, na antiga rodoviária, na Praça Mauá.

Eu estava decidido a fazer teatro e resolvera mudar de paisagem. JK acabara de ser empossado na presidência da República e o Brasil era um continente de otimismo. Eu sabia de pedreira que iria enfrentar mas, na pequena mala, cabia também um otimismo tamanho continente.

Horas depois eu já era carioca, Flamengo doente, morava  “num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza”, estava num bloco de sujos na Avenida Rio Branco, à cata de uma nega chamada Teresa e cantando:

“Recordar é viver, eu ontem sonhei com você.
Foi bom te ver outra vez está fazendo um ano…
Eu sonhei, meu grande amor, que você foi embora,
logo depois voltou.
Mas este ano, meu bem, tá combinado,
nós vamos brincar separado…”

Naquele Carnaval, Zilda do Zé, em comovente homenagem ao seu companheiro, Zé da Zilda, que fora embora no ano anterior, lançou o samba que hoje faz parte da história da música popular brasileira.

Cláudio Corrêa e Castro, o ator para quem o pano se fechou há semanas, foi das minhas primeiras amizades cariocas e continuou sendo nesses últimos 50 anos.

Há mais de 40 anos, levei Cláudio e outros artistas amigos que faziam temporada de teatro em Porto Alegre, para conhecer parte da serra gaúcha, como Canela e Gramado. Naquela viagem, num pernoite em Nova Petrópolis, ainda distrito, enquanto eu dormia, Fernanda Montenegro e Fernando Torres lançavam a pedra fundamental do hoje cineasta Cláudio Torres, irmão mais velho da Fernanda Torres. De Curitiba, para onde a troupe seguiu logo depois de Porto Alegre, recebi um telegrama: “Estamos grávidos PT Fernandos PT

Essa ida sem volta do Cláudio Corrêa e Castro, que, entre muitas criações na telinha e na telona, nos gratificou no teatro com uma inesquecível encarnação de Galileu Galilei, deu-me conta que estou naquela faixa etária onde manda a prudência que o passaporte já esteja carimbado.

A idéia da morte jamais me assustou, mas acho que complicaram muito um negócio que quanto mais simples, melhor. 

Sempre defendi a idéia que uma única vida parece-me o correto, uma maneira pragmática de enfrentar o aqui e o agora, sem prorrogações, segundo tempo ou jogo anulado. Sempre, achei, também, que essa única vida ser no terceiro mundo, é covardia do fortuito.

O que me preocupa é a complicação com que o cristianismo pinta um negócio simples como eu acho que deva ser a morte. Não me agrada essa ameaça ao pobre do defunto com o limbo, o purgatório, o céu, o inferno, a reencarnação… Nâo é mais simples cinzas ao vento e fim?

Confesso que nada nesse cardápio mórbido me apetece. Decidi ser eterno.

Não é por nada não, mas imagine se eu reencarno e me descubro num país igual ao …

Não, não estou aqui para ofender ninguém.

Inté.

PS – Se não der para ser eterno, que pelo menos eu seja igual ao amor do Vinicius, “infinito enquanto dure”,  sem pizza, mas com caviar, paté de foie gras, salmão escocês e outros produtos honestos. Tudo regado por Don Perignon brut. Saúde!

Autor

Mario de Almeida

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