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Apenas um réquiem

“… não perguntes por quem os sinos dobram, eles dobram por ti.”                         &nb

“… não perguntes por quem os sinos dobram,
eles dobram por ti.”

                                          John Donne (1572-1631)

Perguntaram-me o motivo de raras vezes escrever sobre política e eu respondi que, há muito, desinteressei-me pelo varejo político. Hoje escreverei sobre a esperança, ou sobre a morte de mais uma esperança.

Em janeiro de 1961, Jânio Quadros, eleito presidente por maioria esmagadora de votos, era empossado. Em 24 de agosto, renunciava ao mandato. Nesses poucos meses de governo, proibiu a rinha de galo e o uso do biquíni. Alguém acusou: o país que precisava de um estadista ganhou um delegado de costumes. Essa renúncia, no mínimo, salvou-nos de algumas outras imbecilidades ou mesmo de calamidades. Por ocasião daquela renúncia, no episódio da Legalidade, Tancredo Neves “costurou” o acordo que levou o país ao parlamentarismo, assegurando a posse legítima de João Goulart como presidente, coisa que os três comandantes militares queriam proibir. Jango assumiu e os três beleguins da direita passaram à história como os “3 Patetas”.

Esses e outros beleguins, em 1964, tomaram de assalto o poder e fizeram do país um Estado assassino. Depois do período mais nefasto da história republicana e de grande mobilização popular pela volta às liberdades, Tancredo Neves foi, em pleito indireto, eleito presidente. Todo o passado de Tancredo, um moderador de ampla visão política, reacendeu no coração do povo a esperança cívica, a crença em tempos melhores.  Assim não quis a fatalidade e, no Dia de Tiradentes, 21 de abril de 1985, a morte levava Tancredo e deixava um imenso vazio no coração da pátria.

Após duas tentativas frustradas, Luiz Inácio da Silva – Lula – eleito presidente por mais de 60% dos votos, em 1º de janeiro de 2003, em comovente festa popular, tomava posse em meio a um mar de esperança.

Neste agosto de 2005 ninguém poderá me contestar que temos um presidente falastrão, concorrente direto de Fidel Castro na paixão pelo “falar”. Só que as diferenças de discurso são óbvias e, se somadas as bobagens ditas pelo falastrão tupiniquim, teremos um bestialógico mais extenso que toda a obra de Shakespeare.

Confesso que não me importaria de ler tanta asneira fabricada pelo primeiro mandatário se a Fome Zero – cuja minha própria esperança publiquei aqui mesmo – já fosse uma Fome Mais ou Menos 90 ou se os 10 milhões de novos empregos já tivessem sido mais ou menos 1 milhão.

Acontece que eu, como cidadão, só recebo o arsenal de asneira, ou seja, o presidente quer que eu seja um asno de graça.

Hemingway, ao escrever sobre a Guerra Civil Espanhola, foi buscar no escritor e poeta inglês John Donne a inspiração para o título de sua novela: “Por quem os sinos dobram”.

Fosse esse João um brasileiro contemporâneo e ele, em vez de afirmar “por ti”, conforme o poema, concluiria: por nós.

Inté.

Autor

Mario de Almeida

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