Há 10 anos escrevi “História do Comércio no Brasil – Iluminando a Memória”, três mil exemplares de uma edição de luxo não colocada à venda, um brinde comemorativo ao 50º aniversário da Confederação Nacional do Comércio, da qual o primeiro presidente foi o empresário natural de Santa Maria (RS) João Daudt de Oliveira.
Fui convocado agora por Roberto Schneider, o executivo de Comunicação Social da CNC, para escrever um livro sobre os 60 anos da instituição, tarefa a qual, literalmente, coloquei mãos à obra, “pautei” capítulos e convoquei colaboradores. A obra ganhará um apêndice com as outras duas instituições que fazem parte do mesmo Sistema e que, no próximo ano, também atingem o status de sexagenárias.
A sede da CNC é no Centro do Rio e como estou clinicamente condenado a andar e andar, sou gratificado revendo lugares e relembrando fatos.
Semana passada, me vi à frente do Villarino – whiskeria – como o estabelecimento é nomeado por uma placa no seu interior. Impossível não lembrar que foi lá, em 1956, levado por seu tio, o colunista de música popular e jornalista Lúcio Rangel, que Tom Jobim foi conversar com Vinicius de Moraes, que procurava um compositor para a sua peça “Orfeu da Conceição”. Nesse encontro começou a parceria que ia dar samba no mundo inteiro e que, na versão “Girl from Ipanema” incluiu ninguém menos que Frank Sinatra como um de seus intérpretes.
Naquele ano, o quarto de sua existência, o Villarino recebia, no fim do dia, artistas, músicos e intelectuais e Edu ainda era o filho do radialista Fernando Lobo que, tempos depois, se conformaria em ser o pai do Edu Lobo. Lá faziam rodízio, em uma grande mesa, figuras como Elizete Cardoso, Aracy de Almeida, Dolores Duran, Antonio Maria, Ary Barroso, Paulo Mendes Campos, Mário Reis, Sérgio Porto, os pintores Pancetti, Di Cavalcanti e Antonio Bandeira.
No então Distrito Federal quase tudo acontecia no Centro e o Villarino era um dos locais de encontro da “inteligência” onde, inclusive, Drummond, que trabalhava bastante próximo, no Departamento do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional ia, às vezes, também “assinar o ponto”. Pablo Neruda, quando no Rio, ia encontrar-se lá com seus amigos cariocas, como décadas depois ia ao Leblon, no legendário Antonio”s, cujo fundador e proprietário guarda com carinho um cardápio onde o poeta chileno desenhou um copo e escreveu uma dedicatória-brinde para ele, o Manolo.
No antigo Ministério da Educação e Saúde Pública, hoje Palácio da Cultura, principal monumento da arquitetura moderna brasileira, avalizado pela consultoria do francês Le Corbusier, obra dos arquitetos Affonso Eduardo Reidy, Carlos Leão, Ernani Vasconcellos, Jorge Machado Moreira e Oscar Niemeyer chefiados por Lúcio Costa, ao passar por entre seus pilotis, ao lado dos azulejos com estrelas do mar, lembrei-me da tentativa nada cândida do nosso Cândido Portinari: olhos argutos – talvez do Drummond, chefe de gabinete do Ministro Gustavo Capanema – detectaram a gaiatice, pois os peixinhos dos azulejos censurados e não colocados tinham lábios iguais ao do Ministro, uma sutil caricatura feita pelo “moleque” de Brodósqui.
Como sou chegado a uma boa molecagem, fiquei pensando se Portinari, ao batizar um de seus mais renomados trabalhos – e da mesma época – não se lembrara daqueles azulejos só encontrados num depósito há cerca de 10 anos: Retirantes.
Inté.
* Mario de Almeida é jornalista, publicitário, dramaturgo, autor de “Antonio’s, caleidoscópio de um bar” (Ed. Record), “História do Comércio do Brasil – Iluminando a memória” (Confederação Nacional do Comércio), co-autor, com Rafael Guimaraens, de “Trem de Volta – Teatro de Equipe” (Libretos) e um dos autores de “64 Para não esquecer” (Literalis).

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