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Um dia comum e, de repente…

Homenagem à minha pré-adolescência, aos antigos colegas – amigos até hoje – Arnaldo, Bataglini, Bernardo Lorena, Celso Roberti, Diorandy Vianna, Eusilles, José Carlos, José …

Homenagem à minha pré-adolescência, aos antigos colegas – amigos até hoje – Arnaldo, Bataglini, Bernardo Lorena, Celso Roberti, Diorandy Vianna, Eusilles, José Carlos, José Carlos Pellegrino, Luis Celso Piratininga, Luiz Fernando Di Vernieri, Maury Demange, Miranda, Modesto Carvalhosa, Takayama, Telmo, à memória dos que não ficaram para a segunda chamada e à nossa Caetano, a eterna.

Era uma manhã ainda mal começada em São Paulo, outono, e da janela de meu quarto eu sentia que mais um pouco e o sol expulsaria aquele vestígio do frio que sobrara da madrugada.

Eu acordara alegre, bem dormido, talvez houvesse sonhado com Yolanda, colega de ginásio e namorada nova, namoro igualzinho àquela manhã que se prometia radiosa. Peguei livros e cadernos para as aulas do dia, coloquei-os na pasta escolar, desci as escadas e saí, sem ter visto pais e irmãos. Apenas Chica, a mãe preta, já se levantara. Era muito cedo, pois a Ginástica começava às 7 horas. Defronte a algumas casas, pedras de gelo na calçada denunciavam os moradores que ainda não tinham aderido aos refrigeradores elétricos e litros de leite, em vidros grossos, aguardavam a coleta. Eu pulava os filetes de água gelada e, exceto o barulho de alguma carroça não visível, o resto era silêncio.

Entrei na Rua Teodoro Sampaio, dobrei a caminho da Lacerda Franco e, então, um Ford 39, todo preto, passou por mim. O bonde Pinheiros, 29, tipo aberto, e eu, chegamos juntos ao ponto. Como sempre, ele já vinha cheio. Subi para o estribo, com a mão esquerda agarrei o balaústre e uma senhora gorda, dessas gordas que mesmo sentadas são gordas, pegou, como era comum entre os passageiros sentados, a minha pasta. Fiquei pensando que aquelas aulas de Ginástica, sempre às 7 horas da manhã, três vezes por semana, eram um martírio e comecei a reparar naqueles passageiros que, provavelmente, obedeciam àquele mesmo horário de segunda a sábado. Fiquei pensando no martírio maior no mês de agosto, quando não raro, naquela hora, o termômetro marcava zero grau. Naquelas manhãs, para abrir a mão que segurava o balaústre e descer do bonde, era preciso ficar batendo nela com a outra mão para ativar a circulação. Pensei, também, que a escola nos treinava para duas alternativas diferentes: engrossar, no futuro, o pessoal que pegava todos os dias o bonde naquele horário ou, bem melhor, a gente não precisaria mais andar de bonde.

O pensamento foi para a Yolanda e respirei fundo, como se estivesse sentindo aquele cheirinho gostoso da loção Regina. O bonde chegou na Igreja da Consolação, onde eu saltava. Agora era só descer as três quadras da Avenida Ipiranga e chegar na Escola Caetano de Campos. A manhã já acontecera mesmo e era bela, como conseguem ser as manhãs de maio.

Depois da Ginástica e de trocar de roupa, às 7:50 começaram as aulas normais e, na de Inglês, o professor Eurico, um português jovial que gostava de alegrar suas lessons, naquela manhã deu uma de maestro, fazendo a gente cantar:

Oh my darling, oh my darling

Oh my darling, Clementine

Thou art lost and gone forever,

Dreadful sorry, Clementine.

…………………………………..

Estávamos em meio à terceira aula da manhã, de Francês, com Mme. Marina, uma parisiense refugiada da guerra, quando Dona Alice, a inspetora, pediu licença e comunicou que as aulas estavam encerradas, a Alemanha e a Itália haviam assinado o armistício. Um comando invisível, mas imediato, nos levantou e, enquanto quase gritando a gente cantava “allons enfants de la Patrie, le jour de gloire est arrivé…”, as lágrimas rolavam, primeiro dos olhos da professora, em seguida pelos olhos daquelas meninas e meninos sensíveis e solidários.

No Largo do Patriarca, uma quase multidão ouvia pelos alto-falantes da Rádio Cruzeiro do Sul notícias detalhadas daquele fim da guerra na Europa. Enquanto voltava pelo Viaduto do Chá, em direção à Light e ao ponto do bonde Pinheiros, avistava à minha frente, à direita, o Teatro Municipal, por trás dele o edifício do consultório do meu pai, à esquerda o Mappin e, no Anhangabaú, gramados, palmeiras e toda a vegetação eram de um verde vigoroso. A manhã se despedia com temperatura amena e requintes de beleza, enquanto meus ouvidos captavam, vindo do Largo, o som do disco da Canção do Expedicionário:

Por mais terras que eu percorra,

Não permita Deus que eu morra

Sem que volte para lá;

Sem que leve por divisa

Esse “V” que simboliza

A vitória que virá.

……………………………………

Lá estou eu, caminhando pelo Viaduto do Chá, vendo à frente o Teatro Municipal e o prédio do antigo Mappin. O edifício do consultório do meu pai não existe mais. Nem o meu pai.

É março, véspera do outono de 2005.

Vindo do passado, meus ouvidos captam:

Nossa vitória final,

Que é a mira do meu fuzil,

A ração do meu bornal,

A água do meu cantil,

As asas do meu ideal,

A glória do meu Brasil…”.

Inté.

* Mario de Almeida é jornalista, publicitário, dramaturgo, autor de “Antonio’s, caleidoscópio de um bar” (Ed. Record), “História do Comércio do Brasil – Iluminando a memória” (Confederação Nacional do Comércio), co-autor, com Rafael Guimaraens, de “Trem de Volta – Teatro de Equipe” (Libretos) e um dos autores de “64 Para não esquecer” (Literalis).

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Autor

Mario de Almeida

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