Domingo último, logo cedo, atendi um telefonema de Fortaleza, do irmão de minha mulher e brinquei: ô mano, tá indo pro Mercado de São Sebastião?
Em julho, na nossa última ida ao Ceará, num domingo, fomos em comitiva, mulher, cunhado e sobrinhos, pro Mercado, tomar o “café da manhã”. Em minha costumeira frugalidade matinal, comi uma fruta, tomei um suco e um cafezinho, assistindo à tropa toda se dividindo entre pratos de buchada e sarapatel. Enquanto a buchada é feita de sangue e miúdos de bode, cabra ou cabrito, no sarapatel o sacrifício cabe à família suína. Essa tropa e este espectador, mais tarde, se revezaram na degustação de caranguejos, coisa que dá muita mão-de-obra prá quem não treina desde a infância. Ao desligar o telefone, lembrei-me de uma seqüência do mais matutino e diferente “café da manhã” do qual, em vez de apenas testemunhar, eu também participava.
Era abril de 1964 e eu, fugindo dos beleguins do Golpe, fui acoitado pelo engenheiro Arlindo de Souza e “Mamita” (Carmen Gómez de Souza), na estância da família, em Lavras do Sul (a outra Lavra é em Minas). Entre os cinco filhos do casal, todos homens, estão Orlando Carlos e Paulo José. O primeiro fez algumas incursões como ator, mas preferiu seguir a carreira de engenheiro eletricista. Paulo José achou que o palco era pouco e somou com televisão e cinema, onde fez e faz de tudo.
Na estância, eu acordava, antes do sol, junto com o véio Arlindo e, pouco depois, a gente estava acocorada no galpão, junto com a peonada, para o ritual do café da manhã, onde café não havia, substituído pela cuia e bomba do amargo. O alimento, de sustância, era o churrasco de ovelha e, em seguida, a tropa, bem alimentada, cavalgava para a faina diária de fazer o rodízio do gado. Menos eu, que havia fugido do jornal com a roupa do corpo e, mais gorschmier do que a família Souza, não encontrara bombacha compatível.
Mais dois cafés ocupam minha memória, ambos à tarde: o café colonial da Dona Maria, nos idos dos anos 50, quando Nova Petrópolis ainda não era emancipada de São Leopoldo e onde, aos domingos, carros de muitas procedências indicavam onde se degustava o primeiro café colonial comercializado no Brasil, fato que eu achava e, há anos, o Museu Histórico de São Leopoldo me confirmou. Hoje, lá na Serra, há muitas e muitas opções de mesas cheias de muitas e muitas iguarias, queijos, frios, embutidos, tortas e bolos, pães, sucos, chás, chocolate e até café. A indispensável geléia, “schmier” no idioma de Goethe, mas que a gauchada, boa de ouvido, tascou em tupiniquim como “schimia”, é quase sempre caseira e tem variados sabores de frutas. Só em Nova Petrópolis a oferta é grande: Azaléia, Opa’s Kaffeehaus, Serra Verde, Park Haus, Sabor do Campo, Recanto dos Plátanos são algumas.
O outro, também colonial e tradicional, mas com a mesa cheia de coisas diferentes, a começar pela tapioca, é num dos lugares mais belos do Centro do Recife, onde fica a igreja do mesmo nome, Pátio de São Pedro, e é tradicionalmente oferecido nas tardes de domingo.
Em São Paulo, não para o café da manhã, mas para o almoço, há um prato tradicional em extinção, que há muito está fora dos cardápios comerciais, o cuscus paulista. Esse cuscus não tem nada a ver com o marroquino, o africano feito de carnes diversas. Há muitas e diferentes receitas para o paulista, mas com dois dogmas comuns: é cozido no vapor e em utensílio especial, o cuscuzeiro. Entre as versões de minha mãe e da avó mãe dela, criei a minha, que soma um total de 23 ingredientes. Farinha de milho, camarão, peixe, sardinha, ovo cozido, palmito, ervilhas e tomates fazem o básico, acrescido de temperos, óleo e outras gentilezas. A tampa, enquanto tudo é cozinhado em torno de 45 minutos, é feita com grandes folhas de couve.
Eu tinha um amigo – que me introduziu na paixão pelo teatro e dirigiu as primeiras peças em que trabalhei como ator, ainda no Ginásio – totalmente vidrado no cuscus de minha mãe, que já me dizia com antecedência:
– Avisa o Bibi que domingo tem cuscus.
Nessas comilanças dominicais, o Bibi fotografou minha mãe e seu cuscus, foto que de vez em quando passa por minhas mãos e balança memórias já esfumaçadas.
Há uns 20 anos, ensinei uma antiga empregada, que trabalhou conosco mais que uma década, a fazer o meu cuscus. João Carlos Magaldi, paulista também, saudoso homem de Comunicação da Globo, amigo/irmão, quando soube do fato, não me deixava passar dois meses sem comer cuscus, pois já que tinha que fazer um pra ele, que o implorava, fazíamos dois. Quando Áurea e eu achamos que nossas filhas mereciam pais matrimoniados e nos curvamos às papeladas, tinha Magaldi e cuscus no almoço do casório.
Peço aos leitores – sei que muitos pagam semanalmente essa penitência, como o Pellegrino, engenheiro amigo de São Paulo – que me perdoem, mas a Luzia, aquela empregada de antigamente, está visitando a gente hoje e avisando que o cuscus tá na mesa.
Inté.
* Mario de Almeida é jornalista, publicitário, dramaturgo, autor de “Antonio’s, caleidoscópio de um bar” (Ed. Record), “História do Comércio do Brasil – Iluminando a memória” (Confederação Nacional do Comércio), co-autor, com Rafael Guimaraens, de “Trem de Volta – Teatro de Equipe” (Libretos) e um dos autores de “64 Para não esquecer” (Literalis).

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