Colunas

Notícias da Estátua

“Ó nós que roçamos a fímbria das coisas e não atingimos jamais o seu fátuo limite.” Pedro Morato Krahenbuhl Estou há um mês trabalhando …

“Ó nós que roçamos a fímbria das coisas

e não atingimos jamais

o seu fátuo limite.”

Pedro Morato Krahenbuhl

Estou há um mês trabalhando num espetáculo sobre Mario Quintana, a convite do ator Rogério Fróes. Rogério foi minha “cria”, em 1955/56, quando fui para Campo Grande, subúrbio do Rio, dirigir espetáculos para o Teatro Rural do Estudante. Lá, participou de diversos espetáculos premiados e o talento levou-o ao profissionalismo, em teatro, cinema e TV. Ele emprestou-me o livro “Cacilda Becker, a fúria santa”, e acabei me reencontrando na página 365 onde o autor, referindo-se ao diretor de teatro Antunes Filho, escreveu “… Antunes, que se consagraria como um dos mais importantes diretores do país, era apenas um dos garotos que freqüentava a ‘Turma da Estátua’ – como se autodenominou um grupinho de intelectuais que costumava se reunir ao pé da escultura A Leitura, no saguão da Biblioteca Municipal de São Paulo. Os integrantes desse grupo, que só existiu informalmente, ainda dariam muito o que falar. Participaram dele o dramaturgo Manoel Carlos (teledramaturgo hoje ligado à Globo, então já envolvido com TV); Bento Prado Jr., filósofo; Roberto Schwarz, ensaísta e crítico literário; Mário de Almeida, jornalista; Flávio Rangel, também candidato a diretor de teatro, e seu irmão Paulo, aluno da Escola de Arte Dramática; o cenógrafo Cyro Del Nero; o ator Fábio Sabag e outros. Uma turminha da pesada, em particular para o teatro…”

Como o autor fez menção ao teatro, faltam na relação pelo menos dois nomes de importância, Carlos Henrique Escobar, filósofo que dedicou sua vida à autoria de peças teatrais, livros de sua especialidade, e ao magistério universitário, e a portuguesinha que conheceu naquela biblioteca, com quem casou e hoje é a atriz e empresária Ruth Escobar.

Flávio Rangel, amigo/irmão, foi apresentado ao teatro, já adulto, por mim mesmo, em “A Falecida”, de Nelson Rodrigues. Quase em seguida fomos assistir ao “Le livre de Christophe Colombe”, de Paul Claudel, pela Cia. Madeleine Renault-Jean Louis Barrault, e, a partir desse espetáculo, Flávio, até a morte, só pensou e fez teatro, consagrando-se como um dos mais importantes diretores brasileiros.

Manoel Carlos, autor de textos e adaptações dos primeiros teleteatros brasileiros, hoje é festejado autor de telenovela. O que pouca gente sabe é o poeta que nele habita e quando eu ia editá-lo, em Porto Alegre, o golpe de 64 frustrou-nos. Fiquei feliz, 18 anos depois, quando recebi seu livro, “Bicho Alado”, cuja capa é um óleo de Cyro Del Nero. Um dos poemas começa assim: “Pela turma da Biblioteca (adoradores da estátua de Minerva), no inverno de 1948…”

Cyro, outro amigo/irmão, que foi conhecer a Grécia com recursos de uma “vaquinha” feita entre a “turma da estátua”, de lá mesmo conseguiu uma bolsa para a Alemanha, onde durante três anos aprendeu tudo sobre cenografia e hoje é renome internacional. Cyro antecedeu Hans Donner na Globo, onde criou vinhetas e aberturas de telenovelas. Há anos prestou brilhante concurso para a cadeira de Cenografia, na USP, onde leciona, e eu comentei: imagine só se você tivesse diploma do curso primário. Nas últimas férias, levou alunos para a Grécia e me mandou uma foto digital do Epidaurus, o mais famoso teatro do mundo, onde estivemos há anos.

Bento Prado Jr., depois de longo exílio em Paris, vítima da ditadura, hoje é professor de Filosofia em São Paulo. Pouco antes que o pano se fechasse para o Flávio Rangel, conseguimos, ele, Bento, Manoel Carlos, Cyro e eu, almoçar num hotel do Rio e, sobre esse reencontro, Maneco escreveu uma bela crônica na Tribuna da Imprensa.

Sobre Roberto Schwarz, outro ex-exilado, só sei de sua carreira de crítico e de ensaísta pela imprensa e pelos livros.

Acabo de ler em O Globo a notícia preocupante que a atriz Zilka Salaberry está internada num hospital. Zilka estava sempre no elenco do Vesperal Trol, na TV Tupi do Rio, que nos anos 50 e 60 tinha, aos domingos, audiência cativa da gurizada e cujo responsável era o colega da “Estátua”, o diretor e ator Fábio Sabag, hoje diretor de elenco na Globo. Quando eu, em Porto Alegre, tinha que vir ao Rio, Sabag me entregava a direção de um programa, o que garantia uma nota boa. Os primeiros ensaios eram em casa da Zilka, em Copacabana. Há 20 anos, criei no megacondomínio, onde moro, uma horta comunitária, e a madrinha era a Zilka, então a Dona Benta da versão anterior do Sítio do Picapau Amarelo, na Globo.

Hoje, a Dona Benta é Nicette Bruno e, por coincidência, fui eu quem sugeri e arrumei a tradução para o Antunes Filho dirigir a peça de inauguração do Teatro Íntimo Nicette Bruno, em São Paulo, 1954. O espetáculo foi sucesso e “Week End”, de Noel Coward, a primeira direção profissional do Antunes.

Paulo Goulart, marido de Nicette, e eu fomos companheiros, em 1955, no Rio, no elenco do “Vestido de Noiva”, de Nelson Rodrigues, que todas as noites ia ao meu camarim para repetir: “Sou um triste, Mario, sou um triste”. O triste, no caso, era amante da sogra do Paulo, a atriz Leonor Bruno, também no espetáculo. Nessa montagem Oswaldo Loureiro estreou como ator, oriundo do coro do Teatro Municipal, e como eu era também assistente de direção, coube-me ensaiar o futuro amigão. Loureiro tinha a última fala do segundo ato que ensaiamos mais de centenas de vezes e até hoje, quando nos encontramos, brincamos:

Eu – Ela sofreu muito, doutor?

Loureiro – Nada, absolutamente nada.

Minha filha Carla, há anos, quando estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Rio, apareceu em casa cheia de livros de Filosofia e de peças teatrais. Carlos Henrique Escobar, seu professor, descobriu quem era o pai dela e me doou noites e noites de excelentes leituras.

Não dou notícias de Pedro Morato que seria uma das maiores vozes de nossa poesia se não houvesse se atirado de um viaduto, bem ao lado de onde havia aquele edifício-favela que, quando demolido, inspirou Adoniran Barbosa no clássico “Saudosa Maloca”.

Inté.

[email protected]

Autor

Mario de Almeida

Compartilhar:

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.