Quinta-feira, 10 de fevereiro, li o mestre Verissimo decretando, em O Globo, a morte da Quarta-feira de Cinzas. Faltava só a palavra do mestre para que as mais que pitorescas histórias de Carnaval, recolhidas na Quarta-Feira passassem a ser História. Mudou o Carnaval, mudaram os costumes, mudou o mundo e lá se foram as histórias que só poderiam mesmo ter acontecido no Carnaval de décadas atrás.
Acho, porém, que se Verissimo continuar nessa faina de escrever – as letras e eu queremos que continue por muito tempo – poderá, resultantes dos tempos modernos, colher novíssimas histórias de Carnaval.
Em grandes cidades como o Rio, o povo vem se libertando do império da exibição das escolas de samba e volta a fazer a sua festa de participação, onde não assiste ao Carnaval, mas faz o Carnaval.
Fui um carnavalesco de salões, em São Paulo e no Rio, descansei por 7 carnavais em Porto Alegre e ao residir, definitivamente, no Rio, aderi à Banda de Ipanema desde sua segunda versão, em 1966 até o final dos anos 70.
Essa de Ipanema foi inspirada na Banda Philarmônica Embocadura, de Ubá, cidade mineira e berço do designer e mestre Ferdy Carneiro (de Ary Barroso também), que levou alguns amigos, entre eles Albino Pinheiro, à sua cidade, durante o então “tríduo momesco”. Ferdy e Albino, este o seu principal animador, fundaram a Banda de Ipanema. A “base” dessa banda carioca foi o Bar Jangadeiro, na Praça General Osório, extinto ponto de artistas, jornalistas, publicitários e executivos de muitas áreas. Acontece, ainda, que a 200 metros de minha casa, o Jangadeiro, depois do banho pós trabalho, poderia ser o início da noite onde, se eu chegasse e levantasse o polegar para o meu garçom – Cabeça – era sentar e receber fatias de pão preto, porção de patê e um chope na pressão.
Em 1965, o cartunista Jaguar, no Jangadeiro, listou os 30 fundadores da Banda que, logo na primeira saída, carregavam a faixa: “Uma banda em cada bairro”, cuja idéia de multiplicação do espírito de carnaval de rua era óbvia. Nos primeiros anos, Albino, fardado de branco, meio general, no Jangadeiro, passava o chapéu – literalmente – e a gente doava uma grana para pagar os músicos. Nesses primeiros anos, os foliões, na saída da praça, foram duzentos a trezentos e nunca mais que mil. Em 1970, ainda na General Osório, dei um abraço no Paulinho da Viola que, dando uma de divulgador, distribuía, pessoalmente, a letra impressa da sua música, hoje um “clássico” da MPB: “Foi um rio que passou em minha vida…”
* Mario de Almeida é jornalista, publicitário, dramaturgo, autor de “Antonio’s, caleidoscópio de um bar” (Ed. Record), “História do Comércio do Brasil – Iluminando a memória” (Confederação Nacional do Comércio), co-autor, com Rafael Guimaraens, de “Trem de Volta – Teatro de Equipe” (Libretos) e um dos autores de “64 Para não esquecer” (Literalis).

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