Quando também falta educação, pego mais pesado.
Edito um minipasquim, no megacondomínio (6.000 vizinhos) onde moro e publiquei, semana passada: “Li uma notícia em O Globo, coluna Gente Boa, e fiquei sabendo que a curadoria do XVI Salão de Humor Carioca, que todo ano acontece, na Casa Laura Alvim, na Vieira Souto, estava desesperada à cata de originais do Borjalo, o poeta do traço que, falecido, será homenageado. A família, face ao prazer de Borjalo em doar aos amigos seus originais, só possui três, o que, sem trocadilho, até parece piada”.
Quando, em 1995, escrevi para a Confederação Nacional do Comércio o livro “História do Comércio no Brasil – Iluminando a Memória”, Borjalo, além de autorizar o uso de dezenas de desenhos de sua autoria como ilustrações do mesmo, um livro que é um luxo só, ainda, a meu pedido, e sem cobrar absolutamente nada, criou outras charges referentes a alguns capítulos. Infelizmente, lá mesmo, na Rede Globo, eu copiava e devolvia-lhe os originais. Uma das charges, talvez a mais criativa, referia-se à abertura dos portos brasileiros, em 1808, quando na febre de importações, a alfândega carioca desembaraçou uma grande porção de esquis, o que deve ter feito a festa nos locais gélidos como o próprio Rio e futuras cidades, tipo Teresina, Manaus e Palmas. Borjalo desenhou gente esquiando num rampa do Pão de Açúcar.
Como tenho um original, duplamente original, pois nunca foi publicado, mandei, de imediato, um e-mail à coluna “Gente Boa”, cujo titular é Joaquim Ferreira dos Santos, assessorado por Jan Theophilo, Cleo Guimarães e Melina Dalboni, pedindo que passassem, à curadoria, meus telefones. Nada aconteceu e resolvi telefonar para Gustavo Lopes, filho do Borjalo e, também, prezado amigo. Daí, entre surpreso e indignado, fiquei sabendo que o Gustavo, sem conhecer a origem da (des)informação publicada na coluna, escreveu para a mesma esclarecendo que a família possui, na verdade, 25 originais. Silêncio total da Gente que nem parece tão Boa assim e seus leitores continuam na crença de uma nota falsa, o que, em jornalismo, é desafinação total. Na coluna sobre TV, também de O Globo, assinada por Patrícia Kogut, quando saiu pela terceira ou quarta vez que um capítulo de novela havia, lá pelos 40 e tantos pontos de IBOPE, batido recorde de audiência no gênero, escrevi corrigindo o tamanho da bobagem (inverdade), pois não foram poucos os capítulos de diversas novelas mais antigas, com índices na casa dos 90 pontos. Silêncio total e os leitores da coluna continuam convivendo com esse absurdo estatístico. Se a verdade não tem importância, qualquer notícia também não tem. O que pensam dos leitores esses escribas e o que pensam eles do ofício de escrever? São ficcionistas travestidos de colunistas?
Resolvi, agora, desabafar, pois justo nesta semana recebi de diversas procedências um texto de Rui Barbosa sobre o compromisso da Imprensa com a verdade. Acho que nas faculdades de Jornalismo a ética da profissão não é levada a sério, coisa muito séria quando não havia nem faculdade. Parece que parte da Imprensa está mais com a cara do país, ou seja, esculhambação total. Sou de uma geração da qual ninguém chegava a ocupar posições de destaque sem que tivesse tomado chá de berço em grandes quantidades. Há, hoje, entre executivos das mais diversas profissões, enclaves de grossura, de má educação, de correspondência não respondida, enfim, um desrespeito ao ser humano.
Quando à frente da Comunicação Social da Fundação Roberto Marinho, meu staff conhecia o lema: só não se responde à segunda carta do mesmo louco. Acho que o colunista Ancelmo Gois, do mesmo Globo, tomou bastante daquele chá, pois as duas vezes em que chamei a atenção dele por referir-se à Gramática quando era Ortografia, ele fez questão de me agradecer. Escrevi aqui sobre o e-mail de meu amigo Cyro Del Nero sobre a Gita do Raul Seixas e Paulo Coelho. O imortal é outro que tomou o chá e respondeu: “Querido Cyro, claro que me lembro do clip, e foi fundamental para que Gita decolasse em direção ao primeiro lugar nas paradas. Muito obrigado então, e muito obrigado agora. Um forte abraço. Paulo Coelho”
Escrevi, no pasquim que edito, sobre o filme “Por quem os sinos dobram”, ao qual assisti e, não sei como, coloquei John Wayne no lugar do protagonista Gary Cooper. Um leitor atento e pessoa delicada procurou-me pessoalmente para avisar do equívoco. Ao agradecer, no número seguinte, além do nome, acrescentei: Obrigado, gente boa!
Inté.
PS. Certas coisas, como não arrotar em público, a gente aprende em casa. Quem não aprende, gosta de buzinar quando a buzina só produz barulho, gosta de furar fila, fuma em lugar proibido, joga papel no chão, não cumpre horários e serve como cidadão padrão do terceiro mundo. Ou quarto.
* Mario de Almeida é jornalista, publicitário, dramaturgo, autor de “Antonio’s, caleidoscópio de um bar” (Ed. Record), “História do Comércio do Brasil – Iluminando a memória” (Confederação Nacional do Comércio), co-autor, com Rafael Guimaraens, de “Trem de Volta – Teatro de Equipe” (Libretos) e um dos autores de “64 Para não esquecer” (Literalis).

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