Conheci Mafalda e Erico Verissimo através da minha primeira namorada gaúcha, paixão fulminante, Vera Gomes, então professora de Inglês e hoje a psicóloga Vera Verissimo, amiga que entrou para o clã Verissimo através do casamento. Era quase meio-dia de um sábado luminoso, final de maio de 1957, um daqueles dias que só Porto Alegre tem a receita exata. A lembrança está ainda vivíssima: pegando um táxi na Salgado Filho, ao dar o endereço para o motorista fui enfático: dirija com cuidado, o senhor está transportando o meu amor. Vera, que conhecia os Verissimo, inclusive dos States, havia marcado aquele almoço para que eu conhecesse, ao vivo, aquele autor que, entre outras obras, já me ensinara a saga dos pampas.
Almoço muito cordial que deu início a uma amizade, não de muitos contatos, mas muito prazerosa para mim que, desde menino era leitor compulsivo. Lembro-me do Erico, em dezembro de 1958, no palco do São Pedro, cumprimentando a equipe do “Esperando Godot”, de Becket, espetáculo ao qual ele acabara de assistir. Erico deixou, por escrito, sua opinião: “Uma grande peça, uma grande interpretação e uma grande direção. Recomendo com o maior entusiasmo este espetáculo que dá um nítido testemunho de nosso amadurecimento em matéria de teatro”.
Quase 17 anos depois, Lara de Lemos, então minha companheira, foi a Porto Alegre autografar um de seus livros de poesia. Acompanhei-a na condição de “príncipe consorte” para rever a cidade e muitos grandes amigos. Fomos visitar Mafalda e Erico e, em meio à conversa, Luis Fernando, que voltara a residir na cidade, entrou na sala e o pai perguntou o que ele estava fazendo. Face à resposta de que acabara de misturar e comer uma sobra de carne assada com arroz, fiz questão de registrar que ele acabara de degustar um “arroz de puta pobre”.
Erico parece que levou um choque de curiosidade e eu expliquei que a Lara voltara, há pouco, de um encontro de escritores em Goiás, e o Bernardo Élis, figura ímpar no quadro da literatura goiana, tivera a gentileza de me mandar, de presente, um livro sobre a culinária de sua terra. Quando fui ao índice, tive o mesmo choque curioso do Erico e me remeti à página da receita, receita simples como a que o Luis Fernando acabara de preparar. Erico, entusiasmado, perguntou se eu podia mandar uma cópia e, face à minha resposta positiva, disse para a Mafalda que eles iriam oferecer um jantar com cardápio impresso e tendo como prato principal o simplório mata-fome da puta pobre.
Lara e eu saímos dos Verissimo e fomos abraçar os Rosenblatt, Luiza e Mauricio, ele um dos maiores participantes da criação e dos primeiros anos da Feira do Livro. O jantar não houve, pois Erico se despediu logo em seguida e os Rozemblat a vida não me deixou rever. Como desde 2001 tenho ido com mais freqüência a Porto Alegre, só em setembro e dezembro agora não fui levar meu beijo à Mafalda, pois ela tinha resolvido preencher a lacuna do quarteto.
Tenho uma amiga, Rosalina Cunha, que conhece o arroz de puta pobre e me telefonou outro dia. Atendi pela extensão da cozinha e pedi um tempo para desligar no fogão o prato que eu estava preparando. Curiosa, ele perguntou o que eu estava cozinhando.
– Arroz de puta pobre quando ganha no bicho.
– ?
– É o puta pobre tradicional mais rodelas de lingüiça.
Inté.
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Aos colegas da propaganda e da imprensa: Erico Verissimo nasceu em 17 de dezembro de 1905. Este ano, além de ser o do seu centenário é, oficialmente, no Rio Grande do Sul, o Ano Erico Verissimo. Coloquem criatividade e transpiração na jogada e faturem, por favor, pois o próprio Erico pagou as dívidas de sua farmácia em Cruz Alta com os direitos autorais de sua criatividade e de seu suor.
* Mario de Almeida é jornalista, publicitário, dramaturgo, autor de “Antonio’s, caleidoscópio de um bar” (Ed. Record), “História do Comércio do Brasil – Iluminando a memória” (Confederação Nacional do Comércio), co-autor, com Rafael Guimaraens, de “Trem de Volta – Teatro de Equipe” (Libretos) e um dos autores de “64 Para não esquecer”
(Literaris).

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