Nem Papai Noel poderia ter acertado alguns presentes que, entre muitos, levaram-me às nuvens e, tenho certeza, vocês concordarão que eu tive motivos.
Eram umas 9 da noite do dia 24 e eu lia, em meu quarto, o caderno Prosa e Verso, de O Globo, muito interessado numa grande matéria sobre o “Circo Nerino”, livro que acabara de ser lançado e que conta a história dos 50 anos de picadeiro de uma família toda voltada para as atividades circenses. Minha filha Rachel, jornalista do Caderno B, do Jornal do Brasil, entrou no quarto e eu, referindo-me ao livro, disse que não me lembrava daquele nome, entre os muitos circos que freqüentei. Ela comentou que fizera uma matéria sobre o livro e entrevistara, em São Paulo, o patriarca, hoje com 82 anos.
No livro sobre o Antônio”s, escrevi que mal fora apresentado ao Vinicius de Moraes, no palco do Teatro Municipal, após uma sessão do “Orfeu da Conceição”, quando uma mulher lindíssima se aproximou e, no mesmo momento, deixei de existir e saí sem mesmo me despedir. Dois anos depois, a convite da Embaixada do Brasil, em Montevidéu, apresentamos lá o espetáculo “Poetas & Poemas”, dirigido por mim. Vinicius foi nosso anfitrião e atravessamos uma noite em sua casa, ele no violão e todos nos copos de whisky. No “Orfeu”, Vinicius e Tom Jobim iniciaram uma jornada de parcerias e, quando fomos para o Uruguai, uma música da dupla estava estourando no hit parade nacional. Não sei o motivo, mas toda vez que quero falar para alguém sobre essa música, me dá o maior branco.
Conheci Mário Lago desde tempos imemoriais e sempre tivemos uma relação muito amigável e afetuosa. Certa vez, pedi ao Mário que gravasse a locução de um texto para uma mensagem da Fundação Roberto Marinho, relativa à Inconfidência Mineira. Gravamos em torno de meia-noite, Mário foi para casa dormir e eu continuei na Globo, gravando outros áudios. Saí, fui cear no Antonio”s e, quase 3 horas da manhã, telefonaram da TV para dizer que houvera problemas técnicos com a fita e o trabalho estava perdido. Voltei à Globo, regravei todos os áudios com Dirceu Rabelo, meu locutor oficial para as coisas da Fundação e não tive coragem de acordar o Mário Lago. Dirceu gravou, também, o texto sobre a Inconfidência, e cheguei em casa com o sol raiando e uma febre de mais de 38º. Fui derrubado por uma gripe violenta e só retornei ao trabalho três dias depois, quando o VT sobre a Inconfidência já estava no ar. Alguém comentou que o Mário Lago estava zangado comigo e dei-me conta do que acontecera e ele não sabia, podendo até supor que eu não gostara da gravação e não tivera coragem de dizer isso a ele. Imediatamente escrevi-lhe uma carta, explicando tudo, dizendo que o cheque dele já estava pronto e terminei afirmando que “principalmente não tenho mais idade para perder um amigo de seu quilate”. Horas depois de mandar a carta, ele telefonou: “Xará, tudo certo, mas tem um detalhe, se você não tem idade para perder um amigo, imagine eu que sou 20 anos mais velho que você”.
Agora, vamos aos presentes: minha filha Rachel deu-me o livro, verdadeira obra de arte gráfica, “Circo Nerino”, e minha filha Carla, um CD da “Biscoito Fino”, uma jóia inédita gravada em 1981, “Antonio Carlos Jobim em Minas ao vivo piano e voz”, onde está a letra daquela música em parceria com Vinicius – “Eu não existo sem você”, cujos primeiros versos são “Eu sei e você sabe / Já que a vida quis assim / Que nada nesse mundo / levará você de mim…”. E, surpresa total, Áurea, a companheira, deu-me uma edição facsimilar do livro de poesias do xará, de 1948, “O Povo escreve a História nas paredes”, um dos 5.000 exemplares distribuídos pela Petrobras em homenagem ao Mário Lago e a sua luta pelo “o petróleo é nosso”.
Entre os outros presentes, muitos vidros de lavanda, uma perfumaria que vai permitir que, mesmo quando este ano já estiver bem velho, eu continuarei cheiroso. E ganhei, de lambuja, o assunto para esta crônica.
Inté.
* Mario de Almeida é jornalista, publicitário, dramaturgo, autor de “Antonio’s, caleidoscópio de um bar” (Ed. Record), “História do Comércio do Brasil – Iluminando a memória” (Confederação Nacional do Comércio), co-autor, com Rafael Guimaraens, de “Trem de Volta – Teatro de Equipe” (Libretos) e um dos autores do recém lançado “64 Para não esquecer” (Literaris).

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