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Uma crônica puxa outra…E tudo acaba em pizza.

Escrevi como uma crônica sobre propaganda levou-me à outra sobre o livro História do Comércio no Brasil – Iluminando a Memória. Destaquei diversas presenças …

Escrevi como uma crônica sobre propaganda levou-me à outra sobre o livro História do Comércio no Brasil – Iluminando a Memória. Destaquei diversas presenças do Rio Grande naquelas memórias. Hoje, lembrei-me da pizza, prato conhecido em todo o Ocidente. Quanto a ela, só não me conformo por haverem cunhado a frase “tudo vai acabar em pizza”, referindo-se às comemorações de maracutaias que jamais serão penalizadas. Ora, não imagino que um golpe no bolso alheio ou no erário público possa ter uma comemoração tão prosaica, substituindo o compulsório champagne, o patê de foie gras e umas generosas porções de caviar e de salmão escocês.

A pizza napolitana, prato comum em Nova York, Chicago ou São Francisco, desde há muito é, nos States, “nacional”, tão americana como o hot dog – que, na verdade, é alemão – e, quase sempre, agredida com um absurdo katchup. Foi reaberta, no final do século passado, a Lombardi, cujas atividades começaram em 1905 e é considerada a primeira pizzaria de Nova York.

Para os napolitanos, que se dizem pais do prato, após a sua internacionalização o tema assumiu características culturais tão importantes que, em Nápoles, foi criada a Associação Européia da Pizza, com a preocupação de manter os preceitos básicos que fazem de uma pizza, uma pizza. O essencial é a qualidade da massa, defendem os napolitanos, justamente preocupados com a preservação de seus valores culinários. E seus associados viajam pelo mundo, divulgando um manual indispensável para o preparo da verdadeira “napolitana”, cujos preceitos referem-se, em sua maioria, ao preparo da massa, à espessura – nem fina e nem grossa – ao ponto exato, crocante, nunca assada a menos de 400° Celsus. A pizza, inclusive, é um grande quebra-galho para viajantes que, face a um cardápio proveniente da Torre de Babel, se decidem por uma pizza, para evitar pedir o que não sabem e comer o que não gostam. Hoje, dezenas de versões incluem até a pizza portuguesa, mas esses napolitanos da Associação, exceto excrescências como a de milaneses degenerados com suas rodelas de abacaxi, ou japoneses ensandecidos com suas raízes de lótus, não se preocupam muito com o que a invencionice coloca por sobre a massa. No início dos tempos da pizza, havia apenas duas versões: alice e mozzarella. E era muito comum pedir-se uma pizza dividida, meio a meio: mezzo alice, mezzo mozarella.

Quando é que começa essa história da comercialização da pizza no Brasil? Nas pesquisas para aquele livro, consegui descobrir uma testemunha gustativa da primeira pizzaria brasileira, no bairro do Paraíso, São Paulo, numa das casas que deram lugar, depois, à loja de departamentos Sears. O cronista Frederico Branco foi um dos primeiros clientes da Pizzeria Surpreza, e como isso aconteceu ainda no verão de 1943 e, portanto, antes da reforma ortográfica de dezembro daquele ano, era mesmo com três “z”.

Em 1960, Paulo José, o artista, eu e nossas respectivas namoradas, entramos numa pizzaria na Avenida João Pessoa, em Porto Alegre. Paulo José comandou:

– Duas pizzas mezzo alice, mezzo mozarella.

E eu, implacável:

– Não dá pra ser uma de cada?

Inté.

*

* Mario de Almeida é jornalista, publicitário, dramaturgo, autor de “Antonio’s, caleidoscópio de um bar” (Ed. Record), “História do Comércio do Brasil – Iluminando a memória” (Confederação Nacional do Comércio), co-autor, com Rafael Guimaraens, de “Trem de Volta – Teatro de Equipe” (Libretos) e um dos autores do recém lançado “64 Para não esquecer” (Literaris).

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Autor

Mario de Almeida

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