Encerrou-se dia 15 a 50ª Feira do Livro e lembrei-me que, em 2001, em sua 47ª versão, lá estive, e minha amiga e companheira do antigo Teatro de Equipe, Ivette Brandalise, entrevistou-me em seu programa, “Primeira Pessoa”, na TVE. Indagado se eu tinha ídolos, respondi que não, sem maiores explicações.
Não expliquei que tenho um monte de ídolos mas, apenas, quando no exercício de suas atividades específicas. Quando Pelé entrava em campo, eu vestia a camisa do Santos ou da nossa seleção. Pelé e Leônidas – o Diamante Negro – foram meus dois grandes ídolos do futebol mas, exclusivamente, de chuteiras. Idem, idem, com meu amigo Tom Jobim, no piano ou cantando, ou no piano e cantando sem microfone, em sua casa no Jardim Botânico. Fora isso, um grande companheiro de copo e, principalmente, de papo. Um “mortal”, como eu. No dia em que Carlos Drummond fez 50 anos telefonei-lhe e disse: “Cumprimente o poeta por mim”. Isso explica o motivo pelo qual não tenho autógrafos de grandes celebridades que conheci pois, realmente, nunca tive um ídolo integral. Tenho, sim, centenas de autógrafos e dedicatórias de escritores e compositores, em livros e discos, ou seja, em suas atividades específicas. Do Luis Fernando Verissimo, por exemplo, um dos meus ídolos literários, tenho um monte de dedicatórias e vou contar, agora, um “causo” com o próprio.
Em sua 47ª versão, fui participar, a convite da Feira do Livro, do painel “Teatro de Equipe – a Casa da Cultura de Porto Alegre”, coordenado por Ivette Brandalise. Aproveitei a viagem para matar saudades do meu filho adotivo e sua família e das grandes amizades conquistadas nos sete anos em que morei na cidade. Certa manhã li, na Zero Hora, uma deliciosa crônica do Veríssimo sobre as ciladas da memória nas sessões de autógrafos. Dou aqui uma paradinha para explicar aos menos idosos que, há algumas décadas, os autógrafos eram simplesmente autógrafos e que as dedicatórias eram reservadas aos conhecidos e amigos. Naquela crônica, Verissimo conta que o pai, Erico, numa sessão de autógrafos em Lisboa, já acostumado às dedicatórias brasileiras para desconhecidos, perguntou a um cidadão:
– Qual o nome que coloco?
– O seu.
Quando acabei de ler a muito divertida crônica do Luis Fernando sobre as amnésias dessas sessões, meu “sensor” disparou e fui direto à programação da Feira. Não deu outro bicho: o malandro ia autografar seus livros naquela tarde e já “plantara” uma desculpa para eventuais falhas da memória. Peguei o telefone e liguei para Milton Mattos, o arquiteto amigo meu e do Veríssimo e marido da Ivette:
– Milton, já leste o Veríssimo hoje?
– Sim, ri muito.
– Te deste conta que ele autografa hoje?
– Bah, tchê…
Encomendei a missa para o Milton e lá estávamos nós, ele e eu na fila, exemplares na mão e Ivette, de fora, na espreita. Um rapaz da editora aproximou-se e pediu que a gente colocasse os nomes num papelzinho. Dissemos que não era preciso, que éramos amigos há mais de 40 anos… Quando chegou nossa vez, dependuramos, no peito, um enorme cartaz: Milton e eu, Mario.
Veríssimo, num segundo, percebeu a trama e perguntou:
– Vocês não trocaram os cartazes?
Milton deu o livro para a dedicatória e quando ia pegar de volta, ouviu:
– Não, esse é dele, e deu-me o livro.
Enquanto ele escrevia a outra dedicatória, Ivette fotografava tudo.
Dias depois, recebi do Milton, pelos Correios, aqui em casa, no Rio, um kit com a crônica e as fotos.
Drummond escreveu, em “Resíduo”, que “de tudo fica um pouco”. Essa lembrança da Feira ficou mais que um pouco.
Inté.
* Mario de Almeida é jornalista, publicitário, dramaturgo, autor de “Antonio’s, caleidoscópio de um bar” (Ed. Record), “História do Comércio do Brasil – Iluminando a memória” (Confederação Nacional do Comércio), co-autor, com Rafael Guimaraens, de “Trem de Volta – Teatro de Equipe” (Libretos) e um dos autores do recém lançado “64 Para não esquecer” (Literaris). [email protected]

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