Sumiu a tesoura da cozinha e eu comentei com minha mulher que, antigamente, cozinha não carecia de tesoura, hoje, indispensável. Como eu buscava assunto para esta crônica, achei que perdera a tesoura e achara o assunto. Lembrei-me das antigas embalagens de alimentos – saco de papel, vidro ou lata – e minha cabeça viajou. Lembrei-me, também, de um fato paralelo: anos 70, parte da direção da Rede Globo reuniu-se para assistir ao primeiro capítulo da telenovela “A Escalada” (a última em preto e branco na emissora), cuja ação era no início dos anos 30. Houvera um grande cuidado para não aparecer nada incompatível com a época, como retirar as antenas de TV dos telhados de uma pequena cidade, local de algumas tomadas. Mal começou o capítulo e, para surpresa geral, soltei um senhor palavrão: uma mesa de sinuca (snooker, na época, em inglês mesmo) estava iluminada com lâmpadas fluorescentes, ainda inexistentes. Essas mesas eram iluminadas com lâmpadas convencionais, cada uma atarrachada em três cúpulas de metal penduradas pelo teto. Agora, no computador, minha cabeça viajou mesmo e lá estou, eu menino, de manhã bem cedo, indo para a escola e pulando, no chão das calçadas, os filetes d”água que fugiam das pedras de gelo que abasteciam as geladeiras remanescentes da era anterior à geladeira elétrica. A memória importou a chegada do liqüidificador e a conseqüente farra com sucos das mais variadas frutas. Nessa época o leite, só existente na versão “curta vida”, era comercializado em litros de vidro e deixado nas portas das casas, a banha e a manteiga em latas (banha e indústria de latas deram início ao megagrupo Matarazzo) e, onde não havia gás encanado, o fogão era a carvão e, portanto, as cidades tinham suas carvoarias. Nas quitandas, o uso da balança era exceção, frutas eram vendidas a dúzias onde maçã e pera, por exemplo, eram luxos, e eram vistas mais em hospitais que em casas da classe média. Galinha e frango só eram vendidos vivos – e com penas, é claro – e custavam mais que o peixe e a carne bovina ou de porco. Daí nasceu o provérbio: “Quando pobre come galinha, um dois está doente”. Exceto nos mercados públicos, não havia um comércio centralizado de alimentos, as compras se dividiam em feiras livres, açougues, peixarias, padarias, confeitarias, mercearias, quitandas, armazéns ou empórios (nesses a freguesia regular tinha cadernetas onde as despesas eram anotadas e saldadas no final do mês). Os primeiros supermercados apareceram nos anos 50, em São Paulo e, um deles, o Sirva-se, inaugurado em 24 de agosto de 1953, foi o de vida mais longa. Já o shopping center demorou mais para surgir no Brasil e, diferente do que supõe nossa vã filosofia, o pioneiro não foi o Iguatemi, em São Paulo, cujo nome deve-se ao antigo nome da rua que é o seu endereço. O primeiro deles, também em pleno funcionamento, é carioca e, em 27 de agosto de 1965, abria suas portas na Rua Dias da Cruz, coração do Méier. O Iguatemi foi o segundo. Os resíduos de uma memória do muito aquém têm seus preços. Outro dia, almoçando em casa, minha empregada colocou, à minha frente, um copo de plástico imitando vidro. Pedi a ela que nunca mais fizesse isso e uma das minhas filhas – ambas jovens – quis saber o motivo e minha mulher, também mais jovem – implacável – vingou a empregada:
– É que quando ele cresceu, o plástico ainda não existia.
Inté.
* Mario de Almeida é jornalista, publicitário, dramaturgo, autor de “Antonio’s, caleidoscópio de um bar” (Ed. Record), “História do Comércio do Brasil – Iluminando a memória” (Confederação Nacional do Comércio) e co-autor, com Rafael Guimaraens, de “Trem de Volta – Teatro de Equipe” (Libretos).

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