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Vida e verso ou vice-versa

Ema, uma parteira francesa, pusera-me no mundo há poucos dias quando surgiu em casa, em Campinas, uma negrinha retinta, analfabeta e com aproximados 17 …

Ema, uma parteira francesa, pusera-me no mundo há poucos dias quando surgiu em casa, em Campinas, uma negrinha retinta, analfabeta e com aproximados 17 anos. Francisca – a nossa Chica – ajudou minha mãe a criar os quatro filhos dela e, depois, ajudou minha irmã Célia a criar meus quatro sobrinhos. Chica, que se foi há algum tempo, em Ribeirão Preto, nunca reclamou de nada, nunca namorou, vivia para a nossa família e conversava com todos os bichos e plantas. Quando eu tinha uns 15 anos levei um susto ao ler esse poema de Manuel Bandeira, pois o poeta também tivera a suprema graça de ter uma Chica em sua vida, no caso, Irene.

Irene no céu

Irene preta

Irene boa

Irene sempre de bom humor.

Imagino Irene entrando no céu:

— Licença, meu branco!

E São Pedro bonachão:

— Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.

Era 1957, eu não completara 26 anos, e fui para Porto Alegre, contratado para dirigir uma peça teatral. Na festa que houve após a estréia do espetáculo, conheci uma prenda e, semanas depois, ela era a prenda minha. Num jantar, disse-lhe, de memória, esse madrigal,

também do poeta conhecido como Manu:

Madrigal tão engraçadinho

Teresa, você é a coisa mais bonita que eu vi até hoje na minha vida, inclusive o porquinho-da-índia que me deram quando eu tinha seis anos.

Dias depois, ao acordar no Majestic, hotel onde eu morava e hoje é a Casa de Cultura Mário Quintana, entregaram-me um telegrama. Era o Madrigal que ela resolvera me enviar por via postal. Surpreso, impactado pelo gesto de extrema ternura, fiquei tentando arranjar uma resposta à altura. Horas depois, assim que recebeu uma corbeille de flores, ela me telefonou. No cartão eu escrevera apenas esses outros versos do mestre Bandeira:

O Impossível Carinho

Escuta, eu não quero contar-te o meu desejo

Quero apenas contar-te a minha ternura

Ah se em troca de tanta felicidade que me dás

Eu te pudesse repor

– Eu soubesse repor –

No coração despedaçado

As mais puras alegrias de tua infância!

Resultado: fiquei em Porto Alegre mais peças. Como ainda havia tempo para voltar para o Rio, onde compromissos teatrais me aguardavam, dirigi outros dois espetáculos e o último, “O Macaco da Vizinha”, além de resultar em prêmios pessoais, encheu de prêmios regionais e nacionais o Teatro Universitário, grupo que me levara ao Sul.

Ano seguinte, voltei a Porto Alegre, a convite de Glênio Peres, e dirigi “Poetas & Poemas” e “Romeu e Julieta”, onde a Julieta era aquela “Tereza”, mais bonita que o porquinho-da-índia (“ri-se da cicatriz quem nunca foi ferido”). O sucesso de “Poetas & Poemas” nos levou ao Uruguai, a convite da Embaixada do Brasil. Lá, nosso anfitrião foi Vinicius de Moraes, ainda na carreira diplomática. E, nesse espetáculo, um outro poeta pernambucano arrancava gargalhadas do público. Era o Ascenço Ferreira:

Sucessão de São Pedro

– Seu vigário!

Está aqui essa galinha gorda

Que eu trouxe pro mártir São Sebastião!

– Está falando com ele!

– Está falando com ele!

Entonces, inté.

*

Propaganda: estou indo passar uns dias em Fortaleza e lembrei-me que o Grupo Pão de Açúcar, face ao concorrente Carrefour, criou o slogan “Orgulho de ser brasileiro”. Estive em julho no Nordeste e uma rede local de supermercados surpreendeu-me com o “Orgulho de ser nordestino”. Decidi que vou abrir um botequim: “Orgulho de ser Mario”.

* Mario de Almeida é jornalista, publicitário, dramaturgo, autor de “Antonio’s, caleidoscópio de um bar” (Ed. Record), “História do Comércio do Brasil – Iluminando a memória” (Confederação Nacional do Comércio) e co-autor, com Rafael Guimaraens, de “Trem de Volta – Teatro de Equipe” (Libretos).

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Autor

Mario de Almeida

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