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Vamos melhorar a pontaria?

Não sei se foi a conquista do Oeste norte-americano, ou a sua conseqüência em Hollywood, naqueles filmes onde cego acerta na moeda só pelo …

Não sei se foi a conquista do Oeste norte-americano, ou a sua conseqüência em Hollywood, naqueles filmes onde cego acerta na moeda só pelo deslocamento do ar. Se ainda não fizeram esse filme, vão fazer, pois para cego dirigir automóvel a 200 km/h, paranóicos chamaram o Al Pacino, que escapou ileso e ganhou seu primeiro Oscar, assim como Vittorio Gassman já havia ganho o prêmio de melhor ator em Cannes, pelo mesmo papel, mas numa versão italiana absolutamente sóbria, sem o deboche à inteligência e sem discursos demagógicos que devem fazer a delícia dos eleitores de Bush (Perfume de Mulher). Só sei que, em tiro ao alvo, os gringos lá de cima dão um banho no gentio aqui de baixo.

Citando apenas seis dos grandes assassinatos, quatro presidentes norte-americanos, um presidenciável e um líder negro tombaram vítimas de tiros criminosos. Todos certeiros.

Embora Abraham Lincoln (1809-1865) e John F. Kennedy (1917-1963) sejam os casos mais citados, os presidentes James Garfield (1831-1881) e William McKinle (1843-1901) também foram baleados e mortos, destinos iguais ao do senador Robert Kennedy e do líder anti-segregacionista Martin Luther King, jr.

Aqui, assassinato a tiros – bem-sucedido e por atacado – é mercado exclusivo do crime organizado. Afora isso não se mata presidente nem de clube rebaixado (e muito menos ditador), e assassinado mesmo, a tiros, nossa história só tem um: João Pessoa, presidente da Província da Paraíba, morto por João Dantas, na Confeitaria Glória, no Recife, em 1930. Motivo? Asseclas de João Pessoa, por desavenças políticas, invadiram a casa de Dantas, roubaram papéis e publicaram cartas (ou rascunhos) do adúltero para sua amante. Conseqüência? A Revolução de 30, que estava vai ou não vai, foi. Esse é um raro momento de nossa história onde o atirador atingiu o alvo, ainda que favorecendo as hostes adversárias.

Antes, em 1909, já acontecera no Rio o primeiro tiro da maior tragédia passional do País e que, certamente, faria, mais tarde, Nélson Rodrigues babar de inveja. Euclides da Cunha que, há tempos, deixava passar em branco a evidente relação de sua mulher Anna com Dilermando de Assis, não suportou a ousadia dela em abandoná-lo e foi à casa de Dilermando, atingindo o irmão dele – Dinorah – craque do Botafogo, que veio a falecer, tempos depois, em conseqüência de tiro na nuca. Dilermando, um autêntico astro de faroeste, campeão de tiro, matou Euclides pelas costas e, anos depois, quando o filho de Euclides, Euclides também, procurou-o por vingança, errou e foi morto a tiros.

Essa tragédia euclidiana não passou dos limites do passional, diferente daquela que começou com tiros na madrugada de 5 de agosto de 1954, perto do número 180 da Rua Tonelero, em Copacabana, e que, quero acreditar, só terminou com o fim da Ditadura Militar e conseqüentes eleições diretas. O assassinado seria Carlos Lacerda, jornalista, candidato a deputado federal e virulento opositor do Governo Vargas, mas quem morreu foi o seu “segurança do dia”, o major da Aeronáutica Rubens Vaz. Tragicômico era o fato que o pistoleiro contratado, Alcino João do Nascimento, já matara, por engano, um infeliz que não era a vítima de um outro acerto. Alcino era tão incompetente que acertou o pé de Lacerda, atracou-se com Rubem Vaz e acabou matando-o com dois tiros no peito. Lacerda, outro atirador inepto, revidou com sua arma e não acertou ninguém. O desastrado pistoleiro, ao fugir atirando, atingiu um guarda municipal, Sávio Romero, que, escapando quase ileso, ainda anotou a placa do táxi do fugitivo. Este, não satisfeito, já no táxi, querendo jogar a arma no mar, deixou-a cair na rua, sendo encontrada durante as investigações.

Essa incompetência toda, gerada no Palácio do Catete, por Gregório Fortunato, chefe da Guarda Pessoal de Vargas, envolveu ainda Climério Euribes de Almeida, também da Guarda, e o motorista Nelson Raimundo Lopes, cujo ponto de táxi era quase junto ao Palácio do Catete! Como não podia deixar de ser, foram julgados, condenados e encarcerados, juntamente com José Antonio Soares, o tresloucado que indicou o Alcino como pistoleiro.

Esse amontoado de equívocos, imblóglio digno de uma boa comédia italiana, não parou por aí – a imperícia da polícia, o inquérito da “República do Galeão” e a turbulência política permitiriam que, depois, outras hipóteses fossem levantadas. Procedentes ou não, essas hipóteses não modificam duas evidências trágicas:

1. Vargas não tinha como errar o tiro no coração com o qual mudou a história do Brasil; e

2. Precisamos melhorar a pontaria.

Mario de Almeida é jornalista, publicitário, dramaturgo, autor de “Antonio’s, caleidoscópio de um bar” (Ed. Record), “História do Comércio do Brasil – Iluminando a memória” (Confederação Nacional do Comércio) e co-autor, com Rafael Guimaraens, de “Trem de Volta – Teatro de Equipe” (Libretos).

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Autor

Mario de Almeida

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