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A memória que não se apaga

Eu estava no chuveiro e, pouco antes das nove, meu pai anunciou: Getúlio suicidou-se! Era terça-feira, 24 de agosto de 1954. Enquanto me vestia, …

Eu estava no chuveiro e, pouco antes das nove, meu pai anunciou: Getúlio suicidou-se! Era terça-feira, 24 de agosto de 1954.

Enquanto me vestia, às pressas, pensava no amigo/irmão Flávio Rangel e em nossas andanças, na véspera. São Paulo parecia haver sucumbido à UDN. Os militares da Aeronáutica, que desde o atentado na Rua Toneleros, quando a má pontaria matou o acompanhante de Carlos Lacerda – Major Rubem Vaz -, haviam criado a “República do Galeão”. Objetivo: derrubar Getúlio da Presidência.

Comentamos, naquela véspera, que o misto de trabalhismo-populismo de Vargas, que impregnara São Paulo há muito, parecia em declínio. Não nos admiramos de ver conhecidos – que sabíamos comunistas – segurando tabuletas e faixas com uma única palavra: Renúncia. Logo depois do acordo entre PC e PTB, com Prestes discursando ao lado de Getúlio, na campanha que em 1950 recolocou o ex-ditador no Catete, os comunistas iniciaram oposição ao trabalhismo.

Flávio e eu éramos cidadãos sem legendas. Nossas famílias haviam participado da Revolução Constitucionalista de 1932 e, há muito, ele e eu alimentávamos ódio aos ditadores do mundo.

Getúlio não tinha sido exceção e a nossa formação pequeno-burguesa não entendia como Prestes conseguira ficar ao lado de Getúlio, o ditador que em 1936 entregou Olga Prestes, sua mulher, para os assassinos nazistas. Desse ódio não escapava seu antigo chefe de Polícia, Filinto Muller, responsável por assassinatos e torturas, principalmente de comunistas. O criador do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), responsável pela Censura, Lourival Fontes, era motivo de nojo. Nosso radicalismo da juventude era uma indústria de náuseas, a mesma náusea que, já maduros, devotamos a Armando Falcão, um daqueles patéticos ministros da Justiça (sic) da ditadura militar.

O Partido Comunista, que nunca viu o “ouro de Moscou”, só “pensava” o que Moscou ordenava. Em Paris, no Café de Flore e no Aux Deux Magots, em Saint Germain de Prés, André Breton, Camus, Simone de Beauvoir, Sartre e parte da inteligência francesa discutiam os caminhos do homem e do mundo. No Brasil, politicamente, Flávio e eu éramos dois utópicos simpatizantes do socialismo. Artes em geral, literatura e teatro em particular, ocupavam nossas cabeças.

Com um tiro no coração, Getúlio mudou a história e, inclusive, adiou para 1964 o coroamento da ganância udenista pelo poder.

Naquela manhã, 24, antes das 11, Flávio e eu observávamos uma cidade completamente diferente da São Paulo da véspera. Piquetes de trabalhadores gritavam sentenças de ódio, destruíam lojas e promoviam um tumulto generalizado.

No Largo São Francisco – espaço da mais tradicional Faculdade de Direito do Brasil, onde Castro Alves e Ruy Barbosa foram colegas e, anos depois, foi ouvida a famosa Oração aos Moços, de Rui – havia diversos oradores discursando para grupos distintos (parecia manhã de domingo no Hyde Park londrino). Flávio e eu começamos a rir quando vimos alguns comunistas discursando contra Lacerda e outros responsáveis por aquela tentativa de golpe. A ordem de Moscou – meia volta, volver! – chegara rápido demais!

Lá pelas três da tarde, Flávio e eu escolhemos, num bairro sossegado, um lugar para almoçar. Lá ficamos, conversando horas, sobre como um tiro, um só tiro de revólver, teria o efeito de milhões de tiros de canhões e mudaria a história de um país.

Quando nos despedimos, fim de tarde, o centro de São Paulo parecia o de uma cidade morta, desabitada, mais desabitada que naquele domingo em 1950 quando, no Maracanã, o Brasil foi derrotado pelo Uruguai.

Eu fui o único passageiro daquele bonde que levava para casa um solitário e atônito cidadão.

Até hoje acho difícil explicar a profunda, imensa solidão cívica que levei para a cama naquela noite de 24 de agosto.

Inté.

***

Cochilo: “O preço da liberdade é a eterna vigilância” era o slogan da UDN que, por muitas vezes, tentou o golpe. Quando fomentou e aliou-se ao golpe de 1964, perdeu a liberdade.

* Mario de Almeida é jornalista, publicitário, dramaturgo, autor de “Antonio’s, caleidoscópio de um bar” (Ed. Record), “História do Comércio do Brasil – Iluminando a memória” (Confederação Nacional do Comércio) e co-autor, com Rafael Guimaraens, de “Trem de Volta – Teatro de Equipe” (Libretos).

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Autor

Mario de Almeida

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