Eram pouco mais de 9 da noite de terça-feira, dia 22, quando Paulo César Peréio, assistindo à TV Cultura, telefona de São Paulo me convidando para acompanhá-lo a um espetáculo de teatro, dias depois, aqui no Rio. De repente, ele diz:
– Mario, tão tocando o hino, Mario!
Ele estava assistindo a um especial sobre Brizola e interrompeu a conversa para dizer que estavam tocando o Hino da Legalidade, cuja música é dele, com letra da poeta Lara de Lemos.
Esse hino, conforme me disse o assessor Paulo Schiling, era um pedido do então governador do Rio Grande, o “comandante” da Legalidade, foi composto em menos de uma hora, no Teatro de Equipe, na General Vitorino, 312. O Equipe, que interrompera sua temporada teatral, havia se transformado na “agência de propaganda” do Palácio Piratini e em Comitê dos Artistas e Intelectuais Pró Legalidade. Dois dias depois o hino já era o “hit parade” da “Cadeia da Legalidade”, improvisada no porão do Palácio. Era uma rede de emissoras de rádio em transmissão 24 horas diárias e “tocada” por jornalistas e radialistas voluntários.
Quando Jango disse “sim” ao parlamentarismo, encerrava-se o movimento legalista. Brizola, tanto na Legalidade como no golpe de 1964, queria partir para o confronto, mas Jango alegou que preferia evitar derramamento de sangue.
Encerrado o movimento legalista – O Despacho –, de minha autoria, visão da realidade política brasileira e uma antevisão dos fatos que culminaram com a renúncia de Jânio Quadros, voltava ao cartaz.
Brizola interessou-se, face aos comentários, em assistir ao espetáculo e, através de meu amigo e assessor de imprensa dele – Hamilton Chaves – marcou-se uma apresentação privada, a qual Brizola compareceu, aplaudiu e disse que gostaria de falar conosco no Palácio.
Era sábado e quando Milton Mattos e eu entramos na sala do governador, ele, useiro e vezeiro no uso de eufemismos e metáforas, foi mais que bombástico:
– Bah, tchê, vocês têm um canhão na mão e eu nem sabia!
Falou-se da possibilidade de excursão com o espetáculo, coisa que não aconteceu fora do Rio Grande, mas, quando da candidatura dele a deputado federal, no Rio, Hamilton Chaves e Josué Guimarães perguntaram se era possível radiofonizar a peça. Foi possível e, dias antes das eleições, a Rádio Mayrink Veiga, no Rio, transmitiu O Despacho diversas vezes.
Conto aqui um segredo que guardei até ano passado, com a publicação do livro Trem de Volta – Teatro de Equipe. Fiz, através de Hamilton Chaves, a “ponte” entre o poeta cubano Nicolás Guillén, então presidente do Sindicato dos Artistas e Intelectuais de Cuba, e Brizola. Face aos acontecimentos da Legalidade, Fidel mandara consultar Brizola sobre a oportunidade de abrir um consulado em Porto Alegre. A resposta do governador foi contraditória, mas clara:
– Jamais agora!
Escrevi aqui que, no último 31 de maio, depois de décadas, voltei a conversar com o “comandante” no lançamento do livro de Flávio Tavares – O dia em que Getúlio matou Allende -, no Rio. Fiquei surpreso ao saber de sua inesperada morte e, ao ler páginas e páginas de seu obituário, lembrei-me de um fato singular na história deste país.
Ao realizar o sonho de Darcy Ribeiro e entregando a Oscar Niemeyer o projeto dos centros integrados de ensino, no Rio – CIEPs -, Brizola apenas dava continuidade à sua máxima: “sem educação não há desenvolvimento”.
Ele investiu em alta escala no ensino como prefeito de Porto Alegre e como governador do Rio Grande, entre 1959 e 1962. Nesse período, o ensino primário e médio atingiu os mais distantes e necessitados municípios. Naqueles quatro anos foram construídas 5.902 escolas primárias e 400 escolas técnicas, ginásios, colégios e escolas normais (institutos de educação). Foram abertas 688.209 novas matrículas e admitidos 42.153 novos professores.
Não sei se o plural desses números é fato singular, mas tenho certeza que foi singular a percepção de que iria faltar professores para esse mutirão do ensino. Mais singular ainda é que não faltou.
Brizola, que chegou à Universidade através do Madureza, atual Supletivo, criou um curso intensivo para formar professores do ensino básico.
Educação foi a grande herança que Brizola distribuiu ainda em vida.
Inté.
* Mario de Almeida é jornalista, publicitário, dramaturgo, autor de “Antonio’s, caleidoscópio de um bar” (Ed. Record), “História do Comércio do Brasil – Iluminando a memória” (Confederação Nacional do Comércio) e co-autor, com Rafael Guimaraens, de “Trem de Volta – Teatro de Equipe” (Libretos).

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