Nasci tão curioso que – se falasse – minha primeira pergunta seria “como são feitos os bebês?”
Eu era pequeno quando perguntei a um adulto quem inventou a roda e ele me disse que ela não foi inventada: “A roda é uma madeira quadrada muito gasta”. Pequeno sim, bobo não: saquei de cara que um ovo não era um paralelepípedo gasto.
A partir daí, em vez de perguntar, aprendi a usar dicionários e enciclopédias.
Hoje, ao sair da piscina, pisei num band-aid. E comecei a pensar nos milhares de inventores anônimos que foram facilitando a vida da gente, per secula seculorum. E voltei a um pensamento que já me havia ocorrido num hipermercado. Na minha infância, para ir ao armazém, talvez nem fosse preciso fazer uma lista, pois os produtos eram muito menos numerosos.
Não havia desodorante, nem detergente, nem sabão em pó, usava-se banha para fritar alimentos, não havia nada plástico, nem tecido sintético e, a caminho da escola, eu observava pedras de gelo nas calçadas. Muita gente ainda se despedia das geladeiras sem motor.
Se Roetgen, Fleming e Christiaan Barnard, para ficar apenas nos Raios X, na penicilina e no transplante de coração, serão nomes eternos na Medicina, hoje, quando vi o band-aid pensei quantas vezes ele já me livrou do esparadrapo. Só que eu nunca soube e saberei quem inventou um e outro.
Em plena comemoração dos 60 anos do grande Chico Buarque, fico pensando na grande injustiça desse imenso anonimato dos inventores das coisas úteis, práticas e de uso cotidiano. Pois é, nas artes e na indústria do entretenimento, a gente sabe os nomes de quem ama, como o Chico, e de quem detesta. Tá tudo lá, seja nos livros, nos jornais, na telona, na telinha, nos CDs e nos DVDs. Se sei que Gutenberg inventou os tipos móveis, os irmãos Auguste e Louis Lumière inventaram o cinematógrafo e a história da televisão começa em 1884 com o alemão Paul Nipkow, não sei nada sobre CD e DVD. Olho ao meu redor e vejo durex, líquido corretivo, verniz fixador, copiadora, fax, grampeador, clipes e bloco de papéis adesivos.
Era 1980 ou 81, eu estava no escritório internacional da Rede Globo, então em Roma, quando minha prima, Maria Eunice, que lá trabalhava, com o marido Filippelli, ambos publicitários, pegou um papelzinho, rabiscou umas palavras e o colocou em cima de um documento.
Foi como se eu tivesse levado um choque elétrico. O hoje prosaico papel de bilhete adesivo da 3M – post-it – não havia chegado ao Brasil e saquei, de imediato, que eu estava assistindo à morte de uma das funções do clipe, ou seja, mandar um bilhete acompanhando um documento. Passei, depois, numa papelaria e comprei um monte dos bloquinhos que vieram comigo para o Rio. Pois é, milhares dessas coisas e coisinhas úteis, que marcam a mudança dos tempos, são invenções de um exército de anônimos.
Hoje, na minha estréia como colunista de Coletiva.net, onde tenho colaborado com artigos, confesso que apesar do destino ter me reservado o privilégio de ser o primeiro publicitário brasileiro a usar computação (Standard Propaganda, 1969) pouco sei de Informática, Internet e periféricos. Seus inventores pertencem, face à minha ignorância, a esse exército.
Esse é um dos muitos motivos desse tributo aos anônimos.
Inté.
* Mario de Almeida é jornalista, publicitário, dramaturgo, autor de “Antonio’s, caleidoscópio de um bar” (Ed. Record), “História do Comércio do Brasil – Iluminando a memória” (Confederação Nacional do Comércio) e co-autor, com Rafael Guimaraens, de “Trem de Volta – Teatro de Equipe” (Libretos).

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