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O Homem com o Bacalhau nas costas

Por J. A. Moraes de Oliveira Ele deixara dois recados antes que eu pudesse atendê-lo. Ao ligar de volta, lembrei-me dos bons tempos em …

Por J. A. Moraes de Oliveira

Ele deixara dois recados antes que eu pudesse atendê-lo. Ao ligar de volta, lembrei-me dos bons tempos em que havíamos trabalhado juntos na maior agência de publicidade do País. Um de nossos maiores prazeres era dar títulos a coleções de moda ou criar nomes para novos produtos de nossos clientes. Muitos daqueles nomes se tornaram marcas definitivas e estão nas prateleiras até hoje.

Agora, meu colega havia criado renome como especialista em “branding” – a moderna expressão para criação e desenvolvimento de imagem de marca.

Quando ele atendeu ao telefone, mostrava indisfarçável irritação. Dizia que, em nome da modernidade, um grave crime de lesa-marca estava sendo cometido.

Ele havia se recusado a participar, mas não podia evitar que o nefasto ato fosse consumado. Quando fez uma pausa, perguntei-lhe sobre o motivo de tanta agitação.

Disse que fora consultado por um grande laboratório farmacêutico para mudar o nome e a embalagem de um dos mais tradicionais produtos brasileiros.

E sem que eu perguntasse qual era o produto, respondeu, em um tom de quem anuncia a morte de um amigo íntimo:

– Eles querem acabar com a Emulsão de Scott. Entendeste? Querem tirar da embalagem o homem com o bacalhau nas costas!

Fiquei calado por um minuto ou dois. Um “flash-back” em preto-e-branco veio à minha memória, mostrando com nitidez a figura do pescador carregando um imenso bacalhau às costas.

***

A cada inverno de nossa infância, minha irmã e eu éramos aquinhoados com grandes colheradas diárias daquele líquido leitoso e com gosto de peixe, chamado Emulsão de Scott.

Nossa mãe tinha firme convicção nas propriedades do óleo de figado de bacalhau, que ela proclamava um remédio milagroso, capaz de nos proteger contra todas as doenças e males que rondavam os adolescentes daquele tempo.

Mas, além do homem do bacalhau às costas, haviam outros personagens que habitavam o armário de remédios de minha infância.

Na prateleira da frente se destacavam os xaropes para tosse: Phimatosan, o Conhaque de Alcatrão de São João da Barra e o mais popular, o Xarope São João, que aparecia nos cartazes do bonde Independência.

Quando eu chegava de volta do Rosário, nas manhãs frias de agosto, ao menor sinal de tosse, as colheradas de xarope eram inevitáveis. Só se podia fazer uma coisa – fechar os olhos e rezar para não fosse o Rum Creosotado, o mais enjoativo de todos e que quase me fazia vomitar.

Em uma velha caixa de charutos Suerdieck, eram guardados os envelopes de Cafiaspirina, as Pílulas de Vida do Dr. Ross, a Pomada Imescard e a Aurisedina, reservada para as nossas dores de ouvido.

Ao lado, as latinhas de Pomada Minancora, do Pó Pelotense, além do vidro de Urodonal e do indispensável Elixir Paregórico.

Ao fundo, os produtos de uso de minha mãe: Antisardina, Leite de Rosas e o Regulador Xavier, um medicamento meio misterioso, que nem eu nem minha irmã sabíamos bem para o que servia.

Mamãe apenas comentava com as amigas: “É um santo remédio!”.

***

Dias atrás, meu colega publicitário voltou a ligar, com novas notícias sobre o triste destino da nossa Emulsão de Scott:

– Sabes da última? Fui ontem até a farmácia e comprei um vidro com o novo rótulo, agora sem o homem com o bacalhau nas costas. Fiquei arrasado. Em casa, tive um novo desapontamento. Sabes aquele inesquecível cheiro dos mares profundos, onde nadam os bacalhaus?

Fez uma pausa, guardando o pior para o fim:

– Agora virou um líquido cor de rosa, e sabes com qual sabor? De morangos, meu amigo, com sabor de morangos!

E desligou o telefone.

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