2019 nem começou e já rende retrospectiva

Por Gabriela Alcantara Braz, para Coletiva.net

Engana-se quem pensa que janeiro é um mês tranquilo para quem trabalha com Comunicação. Não dá para se iludir: os recessos forense, legislativo e escolar não significam a redução do trabalho nas assessorias e redações. A multidão que troca os escritórios pelo litoral segue consumindo notícia. E a vida real não para. Os boletos do IPTU e do IPVA batem na porta. O preço dos uniformes, livros e cadernos exige que pais garimpem promoções de volta às aulas. As condições das estradas são sentidas na pele pelo cidadão, que reclama. O clima, ainda que monitorado por toda a tecnologia disponível, desaponta com o mar "chocolatão", com o calor debilitante e com as chuvas torrenciais, que deixam a defesa civil em alerta. Há sempre informações sobre safras perdidas, regiões alagadas e gente desabrigada. Uma faceta triste do verão, que contrasta com as fotos - cheias de filtro - de piscina, céu azul e areia branca compartilhadas no Instagram. 

As primeiras semanas de 2019 foram marcadas por pautas previsíveis, como a posse do novo Presidente da República e de governadores. Perfis sobre "caras novas" na gestão pública e matérias com prospecções econômicas impactadas pelas mudanças de governo preencheram páginas de impressos e portais. Houve disputa de figurinhas entre os partidos que pleiteiam a presidência da Câmara dos Deputados. Os dias em exercício do General Mourão à frente do país. A cirurgia de Bolsonaro, as polêmicas envolvendo o nome do filho Flávio, o traje da primeira-dama e o discurso em Libras. Teve Davos e uma intensa discussão sobre o formato do pronunciamento presidencial para líderes mundiais e imprensa. Enquanto uns defenderam a fala curta e objetiva, outros levantaram a bandeira da liturgia do cargo, que exige manifestações mais longas de um novo líder, que precisa deixar claro ao mercado internacional seus posicionamentos. Das opiniões acaloradas no Facebook, só mudaram os bodes expiatórios, até porque a grenalização política de sempre não desapareceu com o réveillon.

Os primeiros dias do ano também foram marcados por uma dor repetida e mal resolvida: o rompimento da barragem da Vale, no município mineiro de Brumadinho. As coberturas em rádios e TVs, dignas de documentário, reviveram o crime ambiental que assolou Mariana, também em Minas Gerais, há três anos. A perplexidade do tema não foi suficiente para barrar o excesso sensacionalista de quem explora a tragédia para conquistar audiência. Pauta de comoção nacional, em que predominou o sentimento de impotência diante de um sistema frágil, que permite a reincidência de erros fatais. Indignação amenizada pela cobertura de correspondentes qualificados, que narraram (e ainda narram) in loco e humanitariamente o cotidiano das equipes de resgate e das famílias que buscam informações mínimas para seu próprio consolo. Pessoas solidárias dos quatro cantos do Brasil que se uniram para ajudar, ao mesmo tempo em que se multiplicaram as hashtags de apoio ao atingidos no Twitter.

Não é exagero pensar que 2019 nem começou e já rende retrospectiva. Passou apenas janeiro e já houve deputado abrindo mão do mandato por se sentir perseguido ideologicamente. E indo embora do País por temer pela própria segurança. Teve Enem e uma angústia sem fim de milhares de estudantes pela demora na divulgação dos resultados do Sisu. Já ocorreu até ruído de comunicação entre os que não entendem a diferença entre posse e porte de armas. E, enquanto atualizam as placas dos veículos para o padrão Mercosul, falam em trocar o símbolo do mesmo Mercosul pelo brasão da República nos passaportes. Por questão de patriotismo. Ou será capricho? Enfim, fevereiro chegou, acabou o recesso e o ano vai (re)começar, quiçá com um saldo maior de pautas positivas. Aliás, já iniciaram as movimentações para o Carnaval, alguns blocos inclusive já estão nas ruas. E tem bola rolando no Gauchão.

Gabriela Alcantara Braz é jornalista, com pós-graduação em Gestão de Marcas - Branding.

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