Considerações da Geração Z

Por Bianca Gutier, para Coletiva.net

Talvez dentre as poucas coisas com as quais eu possa contribuir, a que mais tenho propriedade para falar é inerente à minha existência em si: sou jovem. Lido com o desafio diário de trabalhar com colegas de profissão que possuem, na Publicidade, o equivalente à minha idade; isto, se não mais.

Outro desafio de conviver com profissionais que acabam se tornando nossos mentores dentro da profissão, é manter a voracidade por aprendizado sem esquecer de que o senso crítico deve andar lado a lado com a rotina de trabalho. Não estamos lidando com pessoas perfeitas ou que detêm toda a verdade sobre a profissão; bem pelo contrário, estamos lidando com pessoas que possuem um contexto, que são influenciadas, e que influenciam na propaganda; pessoas passíveis de falhas, tanto como seres humanos, quanto como profissionais.

Para um contemporâneo que inicia a sua carreira dentro de uma agência de Publicidade hoje, recomendo muito equilíbrio, muita destreza emocional e muita capacidade de crítica, a fim de evitar a tomada de todo tipo de comportamento, viés moral ou forma de trabalho, como verdade absoluta. O problema mora exatamente no fato de que estamos entrando em espaços extremamente conservadores disfarçados de hubs criativos, estratégicos, transformados com as mudanças exigidas pelo mercado da Comunicação, e inovadores. Mais que isso, aprendendo com profissionais essencialmente tradicionais, ainda que busquem assumir posturas que fujam à indissociabilidade deste fato.

Nos deparamos com projetos inovadores, considerados disruptivos e que findam por ser exatamente mais daquilo que já é costumeiro de se ver: um disfarce muito bem executado (e, às vezes, nem isto) de mais do mesmo. Projetos mal desenhados, mal amarrados e que, eventualmente, acabam com a inclusão de elementos sem sentido estratégico, apenas para suprir fins políticos. Não posso ser convencida de que não há profissionais na Publicidade hoje que agem de forma completamente oposta àquilo que propagam.

Durante os dois primeiros anos em que iniciei minha trajetória dentro da Publicidade, pude perceber diversas pessoas com muito potencial deixarem agências devido a insatisfações similares com as que encontro agora. Isto me faz questionar mais e mais, a cada dia que se passa, se a culpa toda é mesmo de uma crise econômica que surgiu provocou todas estas mudanças negativas no mercado publicitário. Ou se, talvez, não poderia ter sido uma insistência em revestir formatos e práticas antigas com uma nova roupagem e seguir operando da mesma forma de 15 anos atrás. É difícil dizer exatamente, mas vejo aqui que nós, profissionais, fomos desafiados, e a pior parte é que não soubemos fazer muito além de culpar questões sobre as quais não exercemos controle em vez de reinventar o modelo de negócio no qual atuamos.

E não só isso, basta acrescentar palavras bonitas como disrupção e inovação e afirmar fazer parte da transformação digital para se tornar sinônimo de adaptação às necessidades do presente. Particularmente, não os vejo como sinônimos. Digo isto como nativa digital. Não seria outro elemento capaz de efetivamente transformar a profissão e o modelo de negócios no qual opera?

Aqui, mudar se impõe como além do necessário; porém, se continuarmos a endossar o comportamento tradicional a fim de nutrir profissionais egocêntricos ou beneficiar a todos os envolvidos exceto o próprio cliente que agenciamos, teremos cada vez mais um número de clientes abandonando este modelo de negócio que beneficia somente um lado, e que, claramente, não é o deles.

Ser publicitário é um trabalho que deve ir além do que temos hoje. Somos responsáveis pela nossa profissão e pela visão que passamos para além do nosso mercado. É necessária uma reformulação e também senso crítico dos que entram hoje para a profissão e aprendem com profissionais que já estão por aqui há bastante tempo. Uma das grandes virtudes de aprender, é aprender o que se deve aprender, e também quando intervir e inverter papéis: criticar e propor uma reflexão. E ser crítico, neste caso, não é rude: é fundamental.

Bianca Gutier é publicitária.

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