Fofoqueiro diplomado e remunerado

Por Gilberto Jasper, para Coletiva.net

Acordo às 6h, faço um chimas e começo a leitura de três jornais em papel. Depois de 40 anos de experiência, sou um dinossauro que rabisca as notícias, sublinha trechos importantes e faz anotações no corpo das páginas. Ao mesmo tempo mantenho o rádio ligado até o final da tarde. Também zapeio pela internet, em blogs, sites, Twitter e Facebook sempre à vista.

Não raras vezes, à noite, depois da Globo News da tarde, vejo Pampa Debates, Jornal da Band, RBS Notícias, Jornal Nacional e Jornal da Globo. Penso comigo mesmo: quanto do que consumi é verdadeiro, útil ou terá consequências no dia seguinte.

Como escrevi acima, pertenço à velha guarda, adestrado pela baita jornalista Núbia Silveira na Zero Hora. Era um 'carrasco do bem' que batia sempre na mesma tecla: "Anota o nome da pessoa falou contigo, checa todos os dados com mais uma fonte e duvida - sempre! - dos números!".

Com a proliferação de plataformas de informação é impossível checar com critério. A guerra para 'furar' a concorrência é irracional. Ao falar com jornalistas de um jornal diário recentemente, o editor desabafou: "Temos 10 vezes mais ações judiciais motivadas pelo nosso on line do que pelo jornal em papel". Esta deve ser a realidade na maioria dos veículos.

O volume de baboseiras, mentiras deslavadas - rebatizadas de fake news - e boatos surreais é assustador, mas encontra guarida em milhões de internautas. Ao receber determinados conteúdos, devolvo ao emissário com uma pergunta simplória "Tu viste a data da notícia?". Na semana passada recebi um texto de 2009, com o sugestivo título de 'Escândalo!'.

Consumimos toneladas de conteúdos infundados, resultado da ânsia de saber da vida alheia, do passado de homens e mulheres públicos para fomentar fofocas com celebridades e tantos subprodutos da curiosidade às vezes mórbida. Culpa nossa, afinal, sou jornalista, um fofoqueiro diplomado e remunerado!

Gilberto Jasper é jornalista.

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