O poço

Por Gilberto Jasper, para Coletiva.net

No dia 28, diante da urna eletrônica, fui tomado por um sentimento inédito. Jornalista, 58 anos, 40 de profissão, filho de um vereador - eleito pelo MDB em Arroio do Meio, um pequeno município do interior gaúcho em 1968 - sou privilegiado por ter vivido a transformação do Brasil. Saímos das trevas da ditadura para a democracia das redes sociais por meio da política, apesar da ojeriza que suscita.

Para mim, a postura indiferente da maioria dos eleitores com a política gerou uma encruzilhada dolorosa no segundo turno da disputa nacional. Tenho nítidas as circunstâncias em que o ódio foi introduzido na atividade política em nosso País. Nem no período do bipartidarismo dos tempos verde-oliva vi tamanho rancor a permear as campanhas eleitorais de anos atrás.

Participei de inúmeras disputas. Vivenciei o dia a dia da peleia pelo voto. Convivi com boatos - hoje são fake news -, flagrei inúmeros panfletos apócrifos com acusações mentirosas, assisti a várias superproduções com edições ardilosas contra adversários.

A raiva e a mentira criaram fenômenos populistas que mandaram no País por anos a fio. Neles, os mais humildes depositaram todas as suas esperanças e frustrações, mas foram manipuladas. Foram apunhalados graças a campanha bilionárias sustentadas com dinheiro de caixa 2, negociatas e falcatruas.

O clima de revolta, misturado a promessas mirabolantes, abriu uma generosa avenida onde desfilaram candidatos messiânicos que acenam com polícia na rua, corruptos na cadeia, emprego em profusão e a volta dos 'bons tempos'. Vitorioso, o radicalismo agora faz tremer jovens e minorias que, com sobradas razões, temem represálias com base no próprio discurso do presidente eleito e de parte de seus seguidores.

Aqui no Rio Grande do Sul seguimos a cartilha de 'não reeleger', faceta única no País, da qual muitos gaúchos se gabam. Não entro no mérito dos postulantes ao Palácio Piratini, mas vejo com reservas o hábito de 'ser do contra' com tudo. Não é de hoje que digo isso. Faz tempo.

A garantia de que mudança é sinônimo de melhoria nos trouxe até aqui, um Estado mergulhado em dívidas, restrições e frustrações. Logo nós, que já fomos 'o celeiro do País', ostentamos educação copiada por vários países, não admitíamos presos em delegacias e tínhamos rodovias que fomentavam o desenvolvimento. Tudo é passado. Sobrou choro, ranger de dentes e sanha por vendeta.

Apesar da crise sem precedentes - do Rio Grande do Sul e do Brasil - prevejo outros quatro anos de oposição sistemática e míope, incapacidade de perdoar adversários - vencidos ou vencedores - e atrasos que comprometem as gerações vindouras.

Talvez esteja pessimismo demais, mas seria ingênuo esperar mudanças em nome de um projeto de estado e de país em detrimento de projetos individuais. Personalismos e vaidades permeiam o comportamento humano. Isso, somado ao nosso pouco-caso diante da política da maioria dos brasileiros, nos levaram ao fundo do poço.

A pergunta se impõe: quantos subsolos terá este poço?         

Gilberto Jasper é jornalista.

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