O que faz um social media

Por Letícia Heinzelmann, para Coletiva.net

Quando atuava como subeditora de um grande portal de notícias, a função foi listada pelo LinkedIn entre as "dez carreiras mais difíceis de explicar aos pais". E nem era complicado - embora meu avô realmente nunca tenha chegado a entender. Olha que simples: era um cargo exclusivamente jornalístico, onde assistia o editor-chefe, coordenava equipe e, eventualmente, também botava a mão na massa na produção de reportagem. Bons tempos.

O que meu avô perguntaria hoje sobre os netos social media? Sim, porque o coitado teve o azar de ter esposa, filha e netos na Comunicação Social. Querido Vô Névio, nem eu sei o que supostamente se espera de um profissional quando uma empresa anuncia vaga de social media! Não faz muito tempo que veículos e agências tinham áreas bem definidas de redação, arte e mídia - redatores escrevem, designers desenham e mídias planejam a divulgação e mensuram resultados. Mas hoje não é raro encontrar anúncios que exigem um social media "com excelente redação, domínio de Photoshop e Illustrator e conhecimento de ferramentas analíticas". Quem é esse superprofissional que faz tudo isso BEM?

Saímos da faculdade como jornalistas ou publicitários - ou relações públicas, fotógrafos, cineastas, designers, profissionais de marketing ou audiovisual... O leque é imenso. Enquanto o mercado de trabalho se espreme e exige funcionários cada vez mais versáteis - e, provavelmente, absolutamente básicos em cada tarefa -, as universidades segmentam ao extremo seus cursos no âmbito da Comunicação. Saímos da faculdade especialistas numa determinada área e caímos num mundo profissional generalista. Mas, convenhamos, dificilmente o mesmo sujeito fará um texto genial, uma arte de impacto e o melhor impulsionamento possível. E mais: dificilmente alguém é feliz nessa tarefa múltipla.

Podemos questionar se as universidades estão atentas a esse movimento do mercado para formar profissionais multifunções. Mas nem creio que caiba à academia aceitar o que nada mais é que a precarização do trabalho. Em tempos de desinformação massiva difundida via redes sociais e cases publicitários baseados em "fake marketing", cabe ponderar se esse modo de produção está tirando a reflexão sobre o conteúdo. Algumas empresas ainda não perceberam que um post com qualidade e informação ainda vale mais que postar qualquer coisa todo santo dia. E para haver qualidade, há de se ter profissionais capacitados, em suas respectivas áreas.

Letícia Heinzelmann é jornalista, social media (?) e empresária.

 

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