Mulheres e o "vale tudo" da lógica do mercado

Por Carmen Hein Campos e Fernanda Nunes Barbosa, para Coletiva.net

Crédito: Reprodução

A relação entre mercado, consumo e corpo feminino não é nova. A publicidade de carros, cigarros e cervejas vinculavam esses produtos a corpos femininos sexualizados, objetos de desejo masculino. Avançamos, mas o sexismo e as afrontas ao direito do consumidor e ao direito a não discriminação por razões de gênero/raça persistem.

Uma empresa de cosméticos de Santo André/SP foi condenada por campanha publicitária alusiva ao Dia Internacional da Mulher que exibia em outdoor uma mulher transexual negra urinando em pé no mictório de um banheiro masculino e o slogan "pirataria é crime". A vinculação da pirataria à falsidade e aos predicados de inautêntico, espúrio e vicioso são uma ofensa ao direito de não discriminação.

A imagem revela como a transfobia racializada submete a luta pelo reconhecimento à lógica do mercado. Ao associá-la à pirataria, o discurso preconceituoso da desigualdade de gênero e da discriminação racial ingressa na esfera pública e ameaça a democracia ao dar sentido a um discurso único sobre sexualidade e raça, negando direitos a corpos racialmente generificados. 

Em outro caso, um restaurante em Presidente Prudente/SP foi multado por fazer graça com o feminicídio de Eliza Samúdio nas redes sociais com um post onde se lia, escrito em uma tábua de cortar temperos pendurada na parede, "o cão é o melhor amigo do homem - goleiro Bruno". O estabelecimento sustentou que "vivemos em um país livre", amparando a referida "piada" no direito à liberdade de expressão. Nesse caso, a naturalização do feminicídio em forma de "piada" nega a brutalidade da morte e a violência praticada contra as mulheres. 

Os dois casos desnudam o patriarcalismo, a desigualdade de gênero, o racismo, a homofobia e expõem a lógica mercadológica do "vale tudo" para chamar a atenção e vender o produto.

Esses exemplos demonstram as batalhas diárias e conjuntas dos movimentos feministas e consumeristas por reconhecimento e respeito, que constituem a base de uma sociedade solidária.

Carmen Hein Campos e Fernanda Nunes Barbosa são professoras do Mestrado em Direitos Humanos da UniRitter.

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