O jornalismo precisa dos "isentões"

Por Julio Lemos, para Coletiva.net

É evidente o sucesso e a qualidade dos comunicadores que assumiram seus posicionamentos na política ou no futebol, como Kenny Braga, Guerrinha, Baldasso, Serra, Lacerda, Diego Casagrande, Juremir Machado, entre outros. Sem falar dos saudosos Paulo Sant'Anna e Cláudio Cabral. Há também os veículos identificados que fazem um trabalho cada vez mais bem sucedido, como a Pachola, a Inferno, O Bairrista e as rádios oficiais do Grêmio e do Internacional, por exemplo.

Com o advento das redes sociais, tornou-se praticamente impossível omitir as manifestações e ocultar as preferências. Quem trabalha com futebol, provavelmente foi um torcedor fanático no passado. Quem escolheu trabalhar com política, pode ter sido um militante em outra ocasião.

Ter um posicionamento explícito é uma tendência cada vez mais bem aceita no jornalismo opinativo. No entanto, no jornalismo informativo a isenção segue sendo uma premissa. Na hora de informar, precisamos manter a frieza e a cautela que nos conduzem aos processos de checagem da notícia e comprometimento com a verdade.

O "isentão" tem a habilidade de cobrar o político da direita e o da esquerda com a mesma naturalidade. Na crônica esportiva, pode questionar a performance do time gremista e da equipe colorada com a mesma autoridade. Isso não significa "ficar em cima do muro", nem ser hipócrita, mas, sim, ser profissional. É ter a capacidade de desempenhar seu trabalho de forma técnica e ponderada.

No começo do ano, o jornalismo perdeu uma grande referência de isenção, que por não ter lado, criticava com veemência a todos os lados. Ricardo Boechat sabia usar a neutralidade com maestria. Recentemente, Pedro Bial chamou a atenção de muitos críticos por conseguir entrevistar os polêmicos e antagônicos Olavo de Carvalho e Jean Willys na mesma semana e com a mesma postura. Deveria ser normal, mas, nos nossos dias de ferrenha polarização, é visto como excepcional. Aqui em nossa aldeia, podemos destacar o professor Ruy Carlos Ostermann e os mestres Lauro Quadros e Marne Barcelos (felizmente na ativa) como exemplos de comentaristas isentos. Na narração esportiva, Haroldo de Souza e Pedro Ernesto Denardin até hoje conseguem tocar nas emoções dos mais intensos torcedores da dupla Gre-Nal.

Finalmente, é utópico exigir total imparcialidade na comunicação. Afinal de contas, não somos robôs. Somos humanos com sentimentos, emoções e personalidades construídas através de conceitos, princípios e experiências. Todavia, quem escolheu trabalhar com o jornalismo político ou esportivo, na essência do ofício, precisa se libertar das suas paixões clubísticas e ideológicas. É necessário substituir a ótica idealista e o discurso inflamado, pela visão analítica e pelo pronunciamento racional. Quando isso não ocorre, surgem as notícias tendenciosas, a falta de credibilidade e a alienação de ideias. Pois o apaixonado corre o risco de se enclausurar em uma bolha e perder a capacidade de debater e conviver de forma saudável com o contraditório. Parafraseando Chitãozinho e Xororó, na dúvida sobre revelar ou não seus posicionamentos, é melhor seguir negando as aparências e disfarçando as evidências.

Julio Lemos é jornalista e radialista, pós-graduando em Cultura Digital e Redes Sociais.

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