Por uma autocrítica do jornalismo

Por Lucas Rohan

Tenho visto com frequência jornalistas pasmos ao darem a notícia surreal do dia vinda do atual governo federal. A surpresa fica clara nas expressões faciais, no tom de voz, nos comentários nas redes sociais ou, no caso dos que têm mais liberdade, no próprio texto da notícia bizarra em questão. Noticiam com a revolta e o espanto que tais episódios pedem. No entanto, mostram-se surpresos como se qualquer fato surreal vindo do grupo político que governa o País fosse algo totalmente inesperado.

Ao refletir sobre os motivos disso, sobraram-me duas opções: ou os jornalistas em questão são muito incompetentes por não sequer desconfiarem que esse tipo de bizarrice poderia vir dessas fontes, ou são cínicos e estão fingindo surpresa toda a vez que noticiam a "surrealpolitik" nossa de cada dia. A turma do "deixa disso" pode argumentar que a tal surpresa é produto da postura imparcial. Conheço o jornalismo das salas de aula às maiores redações do País e, por tudo o que vi, senti e sei, não posso aceitar essa hipótese conciliadora.

Vamos voltar alguns meses no tempo e lembrar qual foi a postura da maioria dos jornalistas durante a campanha eleitoral. A escolha entre o candidato que vinha do PT e o capitão foi descrita como "difícil" por quase todos. A postura surreal do candidato da extrema direita era relativizada com uma lembrança de algo ruim que os governos anteriores do PT tinham no currículo. Os dois candidatos que foram para o segundo turno eram descritos como extremistas, um de cada ponta do espectro político. Quando um candidato ameaçou fuzilar os adversários, a declaração foi relativizada com a corrupção dos opositores dele.

O fato é que o jornalismo praticado, sobretudo, pela grande mídia, com a desculpa de manter a imparcialidade, normalizou o anormal. Aqui, propositalmente, excluímos a mídia alternativa e posicionada politicamente, pois essa não fez cobertura, fez campanha política ou distribuiu fake news.

Nós, jornalistas, às vezes, nos deslumbramos com a fama e nos damos mais importância do que realmente temos. Fizemos um esforço constante para manter a humildade diante dos likes, comentários e compartilhamentos do nosso trabalho. Lutamos contra o ego ao ver nossos nomes no jornal, nossa cara na televisão e nossa voz no rádio. Mas, no caso da construção de uma narrativa nacional sobre um ambiente político tão confuso, acredito que tivemos, sim, papel decisivo. Por isso, creio que, pelo bem da nossa profissão, temos que fazer uma autocrítica. E, ao fim, se for necessário e se formos humildes o suficiente, pedir desculpas.

Lucas Rohan é jornalista, pesquisador, professor de Jornalismo, mestre em Novas Mídias pela Universidade Nova de Lisboa (Portugal) e autor do livro 'Novas Mídias, Novos Políticos'.

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