Me lembro como se fosse ontem. Eram 11 horas da manhã, meu celular toca e a tela indicava: “Direção do Colégio”. O que teria acontecido com minha filha? Meu coração parou. Mas estava tudo bem com ela, o colégio estava me contatando e pedindo que eu fosse buscá-la, pois entrariam em “lockdown”. Março de 2020.
Se iniciava, ali, a minha saga de entender o que seria das nossas vidas. Máscaras, home-office, muito álcool-gel, restrições, pensamento positivo, pois tudo iria se resolver em três meses, e muitos outros cuidados. O resto da história vocês já sabem, porque também viveram os mesmos meses de angústia total. Esse vírus consumiu a resiliência de muita gente no mundo inteiro.
Pois bem, chegou a manhã de 10 de março de 2021 e eu com uma leve tosse e princípio de dor de garganta. Batata, não deu outra. Fiz o teste RT-PCR e deu positivo. Seja lá o que foi que um chinesinho comeu na floresta de Wuhan, levou exatamente 358 dias para chegar dentro da minha casa, ou melhor, dentro do meu corpo! O que eu deveria fazer?
A sensação de saber que estás positivado com o novo coronavírus é muito cruel. Como pude fazer isso comigo mesmo? Onde foi que eu errei? Como me descuidei tanto assim para pegar? Teria sido no supermercado? Teria sido no elevador do meu prédio? Como será que meu corpo se comportaria? Milhares de pensamentos ruins acumulados e acontecendo em rápidos flashes dentro de minha mente. No meu caso, a luta maior foi com a mente, pois meu corpo reagiu relativamente bem.
Para aqueles que nunca tiveram Covid-19, comento que os dias e noites se parecem iguais, ou seja, desânimo total, muita febre, suador, falta de vontade de comer, concentração nula, dor de garganta, dores musculares, mal-estar constante, eventuais dores de cabeça, diarreia de verdade e uma sensação de estar sempre gripado. Mais ou menos, isso resume bem o que é estar com esse maldito vírus dentro do seu organismo.
Como comentei antes, a pior parte foi controlar meus pensamentos negativos. Como pensar de forma tranquila, se consegui contrair o vírus no pior momento possível? Lotação máxima em todas as UTIs de Porto Alegre, bandeira preta, ninguém na rua e eu contaminado, trancado dentro de casa. Lá pelo oitavo dia, quando achei que estava melhorando, tudo piorou e voltei a ter a lista de sintomas em carga ainda forte. Um show de horror e desespero mental. Tudo de novo.
No 15º dia, finalmente estava sem o vírus. Respirei fundo na janela. Escutei o ar entrando e saindo de meus pulmões. Guardei o maldito medidor de oxigenação numa gaveta e torço nunca mais precisar dele – maquininha dos infernos. Houve um dia em que apareceu 91%, quase morri. Diarreia de novo…
O que eu aprendi com tudo isso? Nada. Talvez me lembrei novamente de quão frágil somos, que todos iremos morrer. Fiquei aproximadamente 20 dias recluso e muito triste, doente. Torço que ninguém pegue. Torço que ninguém mais morra por causa dele. Viva, seja resiliente e se cuide. Este vírus é fumeta.
Julio Gostisa é executivo e produtor de vinhos nacionais.


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