Por Ruy Carlos Ostermann
– “Cuidado que te dou um tiro no pé”. E apontava o 38 na minha cara, não apertava o gatilho, mas sacudia o revólver como se fosse fazê-lo.
Não quero transferir a experiência para ninguém. Mas acho que agora, passado um pouco mais de um ano, já não sinto a humilhação e o medo daquela tarde em frente à minha casa.
Fui gentil, vinha um carro atrás de mim, teria que cortar-lhe a frente para entrar na garagem do outro lado da rua, freei o carro dando espaço para a ultrapassagem. O meu erro foi a minha civilização demasiada. O carro não fez a ultrapassagem, dele desceram dois rapazes, um de cada lado, ambos com revólveres na mão e apressados, gritando para que baixasse o vidro, saísse logo, ficasse quieto.
Pedi calma, levantei os braços, abri a porta e desci. Foi quando um advertiu que daria o tiro no meu pé. Ainda pedi calma e fiquei a dois passos. Virando um pouco cabeça, vi a minha neta Daniela abrindo a porta da casa, distraída.
Arrancaram meu relógio do pulso e levantaram os vidros e pisaram fundo no acelerador do meu carro. O veículo que me interceptara também arrancou. Um quarto adolescente, que viera por trás e apontara o revólver para a cabeça do zelador da rua, embarcou rapidamente.
Os dois carros sumiram na esquina, eu fiquei parado, a Dani me espiava, nada parecia de verdade. Custei a entrar na casa e abraçar a minha neta. O mundo custou a se recompor.

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