Por Paulo Tiaraju Dia desses assisti a um “especial” da Globo sobre a vida e a obra de Dolores Duran. Fiquei estarrecido. Súbito descobri o mecanismo sutil do modo como o preconceito se enraiza na alma das pessoas. Minha suposição é a de que o princípio está atrelado na contaminação do afeto e no eterno oferecimento dos “opostos”: negro e branco, velho e jovem, rico e pobre, burro e inteligente. Dolores Duran experimenta o pico do sucesso na década de 50 e, com 8 anos de idade, eu tinha motivos de sobra para não gostar da cantora. Freud e eu tentaremos explicar: meus pais eram fãs de carteira de Dolores Duran. Eu, e grande parte das crianças da minha geração, fomos criados sob um regime de educação (repressão) rígido, para não dizer asfixiante. Isso do ponto de vista formal, pois a vida acontecia pra valer na clandestinidade. Percebeu como foi inevitável arquivar a cantora no nicho do preconceito e como a contaminação ocorre? Quando tive idade para reconsiderar, a cantora já havia morrido. Foi uma sorte meus pais não terem curtido tanto Chico Buarque, Elis, Caetano, Milton Nascimento, Bob Dylan, Janis Joplin e os Beatles. Já pensou? O “especial” da Globo mostrou uma Dolores límpida, desvelou um enorme patrimônio cultural brasileiro, linda, emotiva, extremamente talentosa, muito, muito próxima de uma extraordinária Elis Regina, hoje arquivada nos nichos da indiferença das nossas crianças. Simples assim.
Noutro dia, estava almoçando com uns amigos, quando a filha de um deles, de modo espontâneo, mas uma com uma ponta de irritação na voz, disse que “um velho de 40 anos” teria tido uma discussão acadêmica com ela. Bah, estou morto e mumificado, ali, ali com Tutancâmon – pensei. Velho de 40 anos? No fundo ela não acha isso, seria um absurdo grotesco. Mas despejou sua raiva na palavra “velho”, neste caso, como sendo sinônimo de algo odioso, execrável, ofensivo.
A garota está contaminada pela cultura predominante. Tenho uma cisma que, em razoável medida, este é um traço visível do imaginárioo da jovens flores dos jardins dos shoppings e da modernidade histérica, e somente estas. Tendem a se tornar iconaclastas. E tentarão abrir caminhos a golpes de preconceito. Ainda bem que é só uma cisma, porque senão seria preconceito. No fundo acho que problema não está na idade de ninguém. Conheci velhos de mau caráter e jovens de boa índole e brilhantes. Acredito no aprimoramento das gerações, na evolução do DNA, nos avanços miraculosos da medicina, e no quanto fazer exercícios físicos e palavras cruzadas mantém o nosso disco rígido mental reluzente como aço escovado.
Mas li não sei onde que a ingestão de álcool está para o cérebro assim como os predadores estão para as manadas de gnus, zebras e alces. O predador quase sempre ataca a retarguarda da manada, onde correm os indivíduos velhos e doentes. Na medida em que os abate, a manada se reproduz a partir de somente exemplares jovens e robustos. Isto é bom para a manada. O mesmo acontece quando bebemos. O álcool ataca as células mais frágeis, mais desgastadas do cérebro. Isto é bom para o cérebro. Ou seja, quanto mais trago, mais nosso cérebro vai se tornando uma máquina potente e rejuvenescida. Muita gente vai discordar deste princípio, mas no fundo será mais um hediondo preconceito.

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