Artigos

A Arte de Perder

Por J. A. Moraes de Oliveira Certas noites, acordava na alta madrugada, ora com o pio de uma ave noturna ora com o latido …

Por J. A. Moraes de Oliveira

Certas noites, acordava na alta madrugada, ora com o pio de uma ave noturna ora com o latido inquieto de um de seus cães pastores. Entre adormecido e desperto, revia cenas de outros tempos e lugares, recordando rostos e vozes familiares que pensava já ter esquecido.

Sentia que os dias e as noites estavam se escoando, o tempo cada vez mais curto para fazer as coisas que não haviam sido feitas. Acima de tudo, ansiava por rever velhos companheiros e retomar convivências que a vida interrompera.

Finalmente, a manhã entrava pelos vidros da janela e os primeiros raios de sol iluminavam o alto dos pinheiros. Liberto dos sobressaltos da noite, Fermino das Dores saltava da cama, a cabeça fervilhando com planos e idéias para o dia que começava.

***

Ele tinha consciência de que havia passado a maior parte de sua vida adulta ocupado com assuntos que então pareciam importantes e inadiáveis, mas que agora nem se lembrava quais eram.

Os anos passaram rapidamente, os rebanhos já não existiam, a fazenda fora vendida e as pessoas que andavam à sua procura, haviam sumido.

Enquanto isso, os filhos adolescentes se transformaram em adultos, as mulheres da casa envelheceram e os amigos se mudaram para outras paragens.

Apesar de tudo, ele não guardava arrependimentos, se sentindo grato pela vida que tivera. E talvez não fosse tarde demais para dividir com os outros o que havia aprendido. Como uma das lições mais preciosas que guardara – a arte de perder.

***

Fermino havia perdido muito ao longo da vida – casas, lugares, objetos, os amigos queridos e o mais dolorido, as mulheres que amara. A cada perda, procurava se convencer de que nada daquilo lhe pertencera de verdade. Fora necessário o sofrimento, para que ele aprendesse a conviver com as perdas, evitando sempre os lamentos desnecessários e os arrependimentos inúteis.

Naqueles momentos, procurava aceitar que as coisas lhe haviam sido tiradas da mesma forma como lhe haviam sido concedidas. Foram inesquecíveis recompensas das escolhas que ele havia feito. Mas que pouco duraram, como costumam ser as recompensas.

Então, ele simplesmente dava de ombros e se concentrava nos sonhos que ainda não conseguira realizar.

***

Quando o jovem médico chegou com os resultados dos exames, Fermino ajeitou-se na cadeira, preparando-se para más notícias. Para sua surpresa e alívio, o médico o saudou com elogios, garantindo que ele estava bem de saúde.

Parecendo um tanto decepcionado por não ter encontrado algo grave nos exames, o médico prescreveu uma longa lista de medicamentos e o fez prometer tomá-los religiosamente, todos os dias.

Fermino das Dores saiu para a rua banhada pelo sol de inverno. Balbuciou uma breve oração, agradecendo pelo que havia recebido e pelo que havia perdido.

Respirou fundo o ar frio da manhã, amassou a receita e a jogou na primeira lata de lixo que encontrou no caminho.

Compartilhar:

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.