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A Cidade das Nuvens – I

Por J. A. Moraes de Oliveira Paul Lucas sentia-se completamente perdido, sem saber onde iniciar seu trabalho nas desoladas montanhas da Anatolia. Ele ainda …

Por J. A. Moraes de Oliveira

Paul Lucas sentia-se completamente perdido, sem saber onde iniciar seu trabalho nas desoladas montanhas da Anatolia. Ele ainda não sabia que seria o único ocidental a entrar em Sagalassos, por muitas centenas de anos.

Era apenas um jovem arqueólogo francês que passava os dias estudando história antiga na biblioteca da Sourbone. Repentinamente, sua vida mudou, quando ele foi enviado para remotas escavações no Oriente Médio.

Mas seus sonhos de encontrar a tumba de Alexandre o Grande ainda estavam distantes, pois sua missão era bem mais modesta – garimpar obeliscos e estátuas para decorar as novas avenidas, que estavam sendo abertas em Paris, pelo Barão Haussmann.

***

Em Sagalassos, à medida em que as escavações se aprofundavam e novas camadas de rocha eram removidas, Paul Lucas encontrava instigantes artefatos de pedra e de cerâmica, revelando as camadas sucessivas de civilizações que viveram sob as ruínas. Ele não se continha de excitação, pressentindo que a montanha ocultava tesouros bem mais valiosos do que peças de decoração para as praças parisienses.

Seu diário registrava cada achado e sua provável origem. Inicialmente, eram vestígios de civilizações recentes, mas logo surgiram utensílios e raros vasos fenícios, hititas e persas. No entanto, Paul Lucas sabia que o Louvre tinha depósitos repletos de peças iguais àquelas.

Ele queria mais – queria encontrar algo que o fizesse rico e famoso.

Impaciente com o ritmo das escavações, desceu ao túnel que penetrava no coração da montanha. Seguindo a luz dos archotes, alcançou uma caverna, onde os operários se agrupavam ao redor de uma grande pedra branca, que havia surgido entre as rochas.

O arqueólogo ergueu sua lanterna e susteve a respiração.

***

Ao tocar na pedra branca, teve certeza que encontrara o que procurava. Era o mais puro mármore de Carrara, o material que os romanos reservavam para as estátuas de deuses e imperadores.

Os escavadores fizeram silêncio, enquanto ele removia a terra e detritos ao redor do fragmento. Aos poucos, apareceu um pé direito, com os artelhos em perfeito estado e o inconfundível desenho das sandálias de couro, usadas pelos dignatários na Roma dos Césares.

A peça de mármore devia ter mais de um metro de comprimento. Ele fez um rápido cálculo – a estátua à qual aquele pé pertencia, deveria ter oito ou dez metros de altura.

Parou, desconcertado, sentindo o suor frio escorrer pelo corpo. Os livros de arqueologia nada diziam sobre estátuas imperiais nas colônias do Mediterrâneo. As grandes figuras de deuses e césares eram destinadas aos monumentos de Roma – no Coliseum, no alto do Circus Maximus ou ao longo da Via Apia. Paul Lucas ainda não sabia o que fazer com a descoberta. Aquilo estava muito além de seus delirantes sonhos de fama  e fortuna.

As tochas ameaçavam se extinguir e ele, relutantemente, acompanhou os homens de volta ao acampamento. Deitou em seu catre, mas não conseguiu dormir. Sabia que em algum lugar naquela caverna, uma monumental estátua estava esperando para ser descoberta.

Passou a noite consultando suas anotações, em busca de uma resposta para algo que lhe deixava a cabeça em fogo – a estátua de um imperador devia fazer parte de um grande templo soterrado sob a montanha. Ou, talvez uma cidade inteira?

***

Antes que o sol surgisse, ele já estava na caverna, orientando os escavadores a abrir um novo túnel, dez metros acima do pé da estátua. Mas, depois de dias de trabalho fatigante, nenhum novo fragmento foi descoberto.

Passou-se quase um mês, quando ele foi despertado por altos gritos vindos da caverna. O arqueólogo correu e entrou túnel adentro, caminhando curvado, sentindo as costas lanhadas pelas saliências da rocha. Os escavadores cantavam e dançavam, apontando para o vão de uma grande pedra que havia se deslocado.

Sob toneladas de terra e poeira, era possível ver, caprichosamente esculpidos em mármore branco de Carrara, uma mecha de cabelos encaracolados e o inconfundível nariz de um patrício romano.

Era a cabeça de um César, sem dúvida.

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