Por J. A. Moraes de Oliveira O arqueólogo francês estava consumido por emoções contraditórias. Ele havia feito uma grande descoberta, algo que assombraria o mundo. Mas estava de mãos atadas – não poderia continuar as escavações antes de comunicar seu achado às autoridades de Istambul.
Paul Lucas sabia o que viria a seguir: os funcionários do Museu Nacional iriam inspecionar a caverna e poderiam decidir fechar o sítio por dias, semanas ou meses. Além disso, sua autorização para escavar em Sagalassos estava por expirar.
Ele estava apavorado. Havia encontrado um imperador romano, mas talvez nunca pudesse admirá-lo no Louvre.
***
Uma semana mais tarde, a região foi sacudida por grandes terremotos que abalaram as montanhas, obrigando a equipe a fechar a caverna e abandonar Anatolia às pressas.
Paul Lucas voltou à França com caixotes cheios de belos vasos fenícios e raros artefatos da antiga Pérsia. Mas não trouxe nenhuma estátua romana, para adornar as novas avenidas de Paris.
Anos mais tarde, antes de morrer, ele descreveria sua experiência em Sagalassos como se tivesse vivido em uma cidade das nuvens, que era habitada por fadas.
***
No dia 30 de julho de 2007, quase 200 anos depois de Paul Lucas ter abandonado Sagalassos, a rede RTF francesa anunciou a descoberta de uma monumental estátua romana nas montanhas da Turquia.
O mundo inteiro assistiu, via satélite, quando o arqueólogo belga Marc Waelkens apresentou uma cabeça em mármore de Carrara, afirmando que pertencia a uma das maiores e mais belas esculturas romanas já descobertas.
E estava certo que se tratava do imperador Adriano, que reinou de 117 a 138 da era cristã.
A equipe da Universidade Católica de Leuven trabalhava no local desde 1990. Mas, apenas em abril de 2007 foram encontrados os primeiros fragmentos da estátua – o pé direito e um pedaço da perna esquerda. O que chamou a atenção dos arqueólogos foi o elaborado desenho da sandália, indicando que se tratava da estátua de um imperador.
Os cálculos sugeriam que a figura poderia ter mais de oito metros de altura, possivelmente parte de um grande conjunto de prédios, que incluiriam termas e um santuário.
Os arqueólogos e museus entraram em estado de excitação máxima – quando o mundo poderia admirar Adriano por inteiro? E a grande pergunta que se ouvia no Oriente e no Ocidente – qual seria o museu escolhido para expor a maior escultura da Antiguidade?
***
Antes de viajar para a Turquia, Marc Waelkens estudou durante meses os registros de seus antecessores nas escavações da antiga Anatolia.
Um dos documentos que mais lhe prendeu a atenção, foi um grosso manuscrito da biblioteca de Sourbone, que teria pertencido a um obscuro arqueólogo do século 18. Nele, apareciam desenhos detalhados do pé direito e da cabeça de uma colossal estátua romana.
O autor do diário não escondia sua obsessão em encontrar uma grande cidade romana, oculta em algum lugar sob as montanhas Taurus.
Ele parecia ter escrito o diário sob os efeitos da febre do deserto, afirmando que, durante sua longa temporada nas montanhas, a única companhia que tivera foram as fadas de Sagalassos que, à noite, lhe sussurravam a localização da cidade das nuvens.

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial