Por J. A. Moraes de Oliveira Fermino das Dores era um simpático velhinho de 90 anos de idade, que se comprazia em vestir-se com todo o capricho a cada manhã, mesmo que não tivesse nada o que fazer na pequena cidade onde morava, nos Campos de Cima da Serra.
Depois da morte de sua mulher, pouco havia sobrado para ocupar seus dias. Não tinha mais energias para cuidar da fazenda e seus filhos proibiram até mesmo seus solitários passeios na praça da cidade. Alegavam que sua vista estava cada vez mais precária e que ele podia ser atropelado por uma carroça ou até por um ciclista distraído.
Antes das oito horas daquela manhã, ele já estava vestido, barbeado e com o raro cabelo meticulosamente escovado e aparado. Aquele seria um dia especial para ele. Os filhos o levariam para uma casa de repouso, nos arredores da cidade, onde receberia os cuidados adequados a seu estado de saúde.
Depois de uma paciente espera de duas horas, ele sorriu docemente quando disseram que seu quarto estava pronto. Enquanto era conduzido pelo corredor, a atendente que os acompanhava ensaiou uma colorida descrição do pequeno aposento que lhe havia sido destinado.
“Gostei muito de meu novo quarto”, disse subitamente, entusiasmado como uma criança que ganhou um filhote de cachorro.
“Mas – retrucou a atendente – o senhor ainda nem viu o quarto”.
“Isto não tem nada a ver com o meu quarto”, disse Fermino das Dores, “ser feliz é alguma coisa que a gente deve decidir antecipadamente. Gostar ou não do meu novo quarto não depende do arranjo dos móveis ou da cor das cortinas. E eu já decidi que vou gostar dele”.
E sorria, enquanto continuava falando para o pequeno grupo, que agora quedava-se parado no meio do corredor, ouvindo seu monólogo:
“A cada manhã, ao acordar, eu devo tomar uma decisão. Posso passar o dia na cama, antecipando as dificuldades que terei com as partes de meu corpo que não funcionam, ou me levanto da cama, agradecido pelas partes que ainda funcionam. Eu acredito que cada dia de nossa vida é uma dádiva e mesmo que eu já não consiga enxergar com clareza, imagino um dia inteiro pela frente para recordar os bons momentos da vida que tenho guardado na memória.”
Quando chegaram ao minúsculo quarto, com poucos móveis e uma cama estreita, Fermino das Dores notou o pequeno vaso enfeitado com uma única flor e um sorriso ainda maior tomou conta de seu rosto.
Sentou-se na única poltrona e continuou falando para os filhos silenciosos e para a cada vez mais aturdida atendente:
“Imaginem a velhice como uma conta bancária. A gente saca daquilo que depositou durante a vida inteira. O conselho que dou para vocês, que são jovens, é que a cada dia que viverem, depositem felicidades na conta corrente de sua memória. Assim, terão muito que sacar quando ficarem velhos. Devemos fazer com que esta conta corrente de nossas vidas cresça sempre e cada vez mais.”
E, concluindo, meneou a cabeça:
“Eu ainda deposito um pouco a cada dia.”
Quando os filhos se retiraram, meio chorosos, Fermino das Dores continuava sorridente, examinando os poucos pertences de seu novo quarto. Pela janela, ele avistava as grandes araucárias ao redor da casa e calculou que deveriam ter idades iguais à sua.
Ao desfazer a pequena mala, a atendente encontrou em cima das roupas um cartaz já um tanto amarelado pelo tempo.
Gentilmente, ele tomou o cartaz das mãos da atendente, colocou-o junto ao vasinho na mesa de cabeceira e se afastou um pouco, ajustando os óculos de grossas lentes.
A atendente debruçou-se sobre seu ombro para ler as letras em vermelho:
5 Regras para aumentar minha conta corrente:
1 – Libertar o coração dos rancores.
2 – Livrar a mente de preocupações inúteis.
3 – Viver com simplicidade.
4 – Esperar pouco da vida.
5 – Dar o mais que puder.
Quando a atendente da casa de repouso fechou suavemente a porta do quarto, Fermino das Dores estava trocando a água do pequeno vaso com a flor quase fenecida.

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