Todos os dias eu me reconheço e desconheço dentro da publicidade, me encontro e me perco novamente. E, enganam-se aqueles que pensam ser um sentimento novo, ou que fala apenas da profissão que escolhi e exerço há 8 anos, pois é algo que carrego comigo desde criança. Na realidade, é um sentimento constantemente reforçado pelo bombardeio de informações publicitárias pelas quais somos diariamente impactados nas ruas, na TV e através do celular.
Mas, se a comunicação não verbal é universal – ao menos na teoria – por que isso segue sendo tão frequente em nossas vidas? Ainda que não pareça, a resposta para essa pergunta é bem simples e pode ser sintetizada em uma única palavra: representatividade.
Ao longo da minha trajetória profissional, que segue em pleno desenvolvimento, tive a oportunidade de encontrar e trabalhar com pessoas que se encaixam e representam todas as letras da crescente sigla LGBTQIAPN+, dos responsáveis pelos caterings presentes nas produções, aos diretores de arte, redatores, produtores, atendimentos, fotógrafos, social media ou quaisquer atividades e cargos que permeiam os bastidores das comunicação, estive e estou em frequente contato com diversas pessoas. Ou seriam pessoas diversas?
Bem, se a ordem dos fatores não altera o produto, a resposta ficará a critério dos que lêem este texto. Os questionamentos que realmente interessam e as provocações que faço, são: se esses profissionais citados estão por trás de tudo o que é comunicado, por que eles não estão à frente também? Por que nós não nos reconhecemos nas publicidades em geral? Por que apenas em junho é dada a relevância que a pauta necessita?
Inúmeros seriam os porquês que aqui caberiam, mas algumas palavras são capazes de responder tais questionamentos, de forma curta e transparente, como: preconceito, LGBTfobia, homofobia, transfobia, lesbofobia, bifobia, etc, etc, etc.
Trazendo alguns dados para corroborar com o que foi dito até o momento, segundo um levantamento feito pelo Scruff Gay Blog, em 2020, apenas 1,3% da publicidade no Brasil é destinada ou representa o público LGBTQIAPN+. Ora essa, logo no país que possui a maior parada do orgulho LGBTQIAPN+ do mundo. No mínimo questionável, não?
E vou além, de acordo com resultados obtidos através de uma pesquisa encomendada pela marca de calçados e acessórios Havaianas, em parceria com a ONG global All Out e o Instituto Datafolha, 9,3% da população brasileira adulta (16 anos ou mais), que equivale a 15,5 milhões de pessoas, identifica-se enquanto LGBTQIAPN+.
Mas o que essa falta de representatividade pode causar? Se não somos ou não nos sentimos representados, somos marginalizados, somos vítimas de inúmeros preconceitos, da falta de oportunidades e de informação e, com toda certeza, vítimas de todos os tipos de violências, que deram ao Brasil o título de país que mais mata pessoas LGBTQIAPN+ no mundo, infelizmente.
Tais dados apenas reforçam a urgência de trabalhar a diversidade ao seu máximo e não apenas quando o chamado “pink money” convém. Isso também é válido para nos lembrar que, nesse texto, foi abordado apenas um dos milhares de recortes da sociedade quando falamos em diversidade, pois, se esmiuçarmos ainda mais, existem os recortes de pessoas periféricas, pessoas pretas, PCDs (pessoas com deficiência), neurodivergentes e daí em diante.
Precisamos ter em mente que diversidade não se trata apenas de colocar pessoas pretas, LGTBQIAPN+ ou PCDs na comunicação da sua marca, vai muito além disso, quer dizer abrir espaços e criar oportunidades para essas pessoas na sua empresa e no seu dia a dia, é tornar os ambientes seguros e confortáveis para todos. É combater os inúmeros tipos de preconceitos disfarçados de opiniões ou piadas que, em geral, nunca são meras opiniões ou piadas. É entender que cada um têm as suas preferências, sentimentos, diferenças, religiões, etnias e identidades.
Enfim, para finalizar o que deveria ser apenas um curto texto, trabalhar a real diversidade no mercado é ter a consciência de que todo mundo é uma potência a ser desenvolvida.
Raphael Simioni é atendimento publicitário na agência Closer e diretor de Marketing na Padrão Empreendimentos Imobiliários


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