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A estratégia do mal aos poucos

Por Braulio Tavares Está circulando na Internet um documento atribuído ao linguista Noam Chomsky, um conhecido crítico das políticas dos EUA.  O documento que …

Por Braulio Tavares

Está circulando na Internet um documento atribuído ao linguista Noam Chomsky, um conhecido crítico das políticas dos EUA.  O documento que circula talvez seja apócrifo, mas não importa.  O autor enumera e comenta algumas das estratégias utilizadas pelos governos e pelas corporações para manter o controle ideológico da população e impedir que suas ações sejam questionadas.  Já comentei algumas, e hoje vou falar no que o documento chama de “Estratégia da Degradação”.  Diz o texto:

“A estratégia da degradação. Para fazer com que se aceite uma medida inaceitável, é suficiente aplicar progressivamente, em “degradado”, sobre uma duração de 10 anos. É dessa maneira que condições socioeconômicas radicalmente novas têm sido impostas durante os anos de 1980 a 1990. Desemprego em massa, precariedade, flexibilidade, salários que já não asseguram ingressos decentes, tantas mudanças que haviam provocado uma revolução se tivessem sido aplicadas de forma brusca.”

O período a que o texto se refere é o da decolagem do neo-liberalismo, que os historiadores situam por comodidade no período de Margaret Thatcher como primeira-ministra da Grã-Bretanha (1979-90) e de Ronald Reagan como presidente dos EUA (1981-1989).  No futuro, está década de 1980 será tristemente célebre.  Ela foi o avesso, o Lado Negro da Força, do que representaram os anos 1960.  O Casal Monstro trouxe para seus países (e as dezenas de países-sócios que vão no seu vácuo) uma aparência de prosperidade cuja conta só agora, vinte anos depois, começa a ser cobrada.  E para pagá-la eles vão ter que inventar em breve uma nova moeda, o quatrilhão de dólares.

O mais interessante dessa estratégia, para mim, é que ela bate de frente como uma das estratégias mais famosas de Maquiavel em “O Príncipe”.  Não tenho a citação exata agora, mas lembro-me de que Maquiavel aconselhava: “Fazer o bem aos poucos, e o mal de uma vez só”.  Fazer o Bem aos poucos implica (a meu ver) na reiteração de ações e de programas que causem boa impressão no público.  Serve como ação concreta e serve também como uma propaganda positiva, constantemente repetida, de que aquela boa ação do Governo volta a acontecer todo mês, toda semana, todo dia.  Produz uma impressão de continuidade.  Já o “Mal de uma vez só” é um pouco como a tática da depilação: melhor uma única dor forte, do que passar dez minutos puxando aquele troço devagarinho “para doer menos”.

Talvez a diferença seja esta: Maquiavel talvez se referisse a ações brutais como a repressão militar a uma revolta.  Casos de emergência que requerem medidas brutais, radicais.  A filosofia do “mal aos poucos”, por sua vez, se aplica a medidas de natureza econômica, que são mais solertes e sorrateiras, e vão se infiltrando aos poucos no cotidiano das pessoas.  Seu poder aquisitivo perde alguns centavos por dia e nem dá por isso, mas ao fim de uma década elas passaram da classe B para a C sem dar um suspiro.

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