Por Roberto Andrade
Uma pequena nota publicada pelo Ricardo Kalil no site No Mínimo expõe um dos mais consistentes questionamentos sobre o chamado “conteúdo colaborativo”, nova febre do mundo on-line.
Kalil contesta a importância dada pela mídia norte-americana para um vídeo amador feito no celular por alguém que estava perto da Universidade Virgínia Tech, no momento em que aquele maluco sul-coreano fuzilava mais de 30 estudantes.
O vídeo não mostra nada além da fachada do prédio da universidade e o estampido de alguns tiros. Como acertadamente afirmou Ricardo Kalil, não tem nenhuma importância como imagem jornalística, podendo servir, talvez, como prova na investigação policial. Mesmo assim, as grandes redes americanas de TV rodaram diversas vezes o vídeo feito no celular, fato que se repetiu pelas tevês mundo afora e pelos sites de notícias on-line.
Este fato dimensiona a forma equivocada como grande parte dos gestores da mídia mundial estão tratando a capacidade dos usuários gerarem informação a partir dos novos recursos da mídia digital. De uma hora para outra perdeu-se a noção de exigências mínimas de qualidade que fundamentam a utilização de um conteúdo gerado pelo público como material jornalístico ou de entretenimento.
Por desinformação e uma certa fragilidade intelectual de quem desenvolve e administra conteúdos profissionalmente, percebe-se uma quebra brusca e inusitada de padrões técnicos e editoriais construídos a partir de fundamentos sólidos, criados na histórica relação entre geradores e consumidores de informação.
A velocidade e a facilidade com que a plataforma das mídias digitais permite aos usuários gerarem e publicarem conteúdos deixou tontos jornalistas, publicitários e produtores, a ponto de já não mais se distinguir com clareza o que tem valor informativo, educacional ou cultural.
O resultado desta duvidosa democratização de recursos e meios é ainda uma incógnita, mas o usuário já brilha no horizonte das mentes preguiçosas e de outras muito espertas como o novo e definitivo gerador da informação. Ele, usuário, passou da platéia para o palco, transformando-se da noite para o dia na nova estrela da comunicação.
O risco desta “nova ordem” é a banalização de conceitos fundamentais na construção de uma informação séria e na produção de entretenimento qualificado. É imprudente inverter papéis sem rever responsabilidades. Não creio que a média dos usuários das mídias digitais tenha talento ou capacidade para realizar o trabalho que jornalistas, publicitários e produtores culturais prepararam-se durante
anos para exercer.
Se o “conteúdo é o rei”, como gostam de afirmar os gestores da nova mídia, devemos esclarecer que reinado é este, pois há uma possibilidade muito grande de toda esta revolução digital criar um retrocesso na qualidade da informação mundial que, se já não é boa, poderá ficar ainda muito pior.
Talvez este seja o momento mais apropriado para gestores, profissionais e estudantes de comunicação debaterem como, porque e para que servem as ferramentas de criação e publicação de conteúdos disponibilizadas aos usuários.
A horizontalização na produção de conteúdos não pode quebrar a importante espinha dorsal dos meios de comunicação, cercada de responsabilidades sociais e culturais. É preocupante ver um player de vídeos (You Tube) se transformar no ícone da evolução da mídia. É hora de pararmos para pensar, pelo menos nós que temos alguma preocupação com a qualidade da informação que produzimos.

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