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A Garrafa Dourada

Por J. A. Moraes de Oliveira Com as duas mãos, usando do maior cuidado, inclinou-a contra a luz, admirando seus reflexos, que pareciam ouro …

Por J. A. Moraes de Oliveira

Com as duas mãos, usando do maior cuidado, inclinou-a contra a luz, admirando seus reflexos, que pareciam ouro líquido. Sentiu um leve sobressalto – e se aquela preciosa garrafa escorregasse de suas mãos e se espatifasse nas pedras da adega? 

***

Ele ficara mortificado durante todo o jantar. Não tivera nenhuma intenção de constranger o maitre, nem atrair a atenção de seus colegas de mesa. Mas o vinho tinha um travo ácido e alguns pequenos fragmentos de rolha. Ele devia ter feito uma expressão de desagrado, quando provou o vinho, pois o maitre se aproximou, retirou sua taça e acenou para os garçons. Em um minuto, todas as taças da mesa foram trocadas e uma nova garrafa lhe foi apresentada, seguida de murmuradas desculpas.

Os demais convidados, empenhados em uma conversação em três idiomas, nada perceberam – nem a movimentação dos garçons nem a troca do vinho.

Mas, do outro lado da mesa, alguém estava atento e notara cada movimento.

E, não por acaso, era a pessoa mais importante da noite – o homem que estava pagando por aquele suntuoso jantar no melhor restaurante de Monte Carlo.

Com um gesto, o anfitrião chamou o maitre e sussurrou-lhe algumas palavras. Perturbado, o homem se afastou, com uma expressão de quem perdeu o emprego. Então ele foi até o anfitrião e explicou que a troca de garrafas fora feita a seu pedido, mas não tocou no assunto “acidez-mais-fragmentos-de-rolha”. O maitre, alguns passos atrás, continuava aflito, mas impassível.

Pouco depois, a afável saudação do anfitrião aos convidados nem de leve sugeria a condição de diretor principal da Société des Bains de Mer.

Tratava-se da mais poderosa corporação do Principado de Mônaco, a única proprietária do “Hotel de Paris”, do restaurante onde estávamos jantando, sem falar do Cassino do outro lado da rua e de 80% de todas os negócios financeiros e imobiliários no pequeno principado.

Ao final do jantar, envoltos na fumaça de puros e em vapores de Armagnac, todos se dirigiram para o Cassino, felizes com os pequenos estojos de fichas para a roulette, gentileza do anfitrião.

De regresso ao quarto, encontrou um convite e uma garrafa de Taitinger Blanc de Blanc. Ele estava sendo convidado para uma visita às Caves da Société des Bains de Mer. O convite era assinado por um certo M. Sallet-Grilland, diretor de vinhos da Société.

Custou a adormecer, desconfiado de que havia sido confundido com um crítico de vinhos ou por um representante do guia Michelin. De qualquer forma, não iria perder por nada uma visita às famosas caves. Às nove horas da manhã seguinte, M. Sallet-Grilland o aguardava pontualmente na recepção. Foi conduzido a uma longa escadaria que mergulhava nas profundezas do hotel. Mais uma pesada porta de madeira foi aberta e ele entrou em uma das maiores caves privadas da Europa.

Durante várias horas, percorreram um labirinto de túneis, cavados sob os prédios e ruas do Principado. Ali repousavam muitas dezenas de milhares de garrafas, organizadas segundo as mais importantes regiões produtoras da França e do resto do mundo. Ao final da visita, chegaram a uma ala fechada por portas de ferro. O guia fez uma pausa, para informar que ali se encontravam as garrafas mais antigas e os raros grand crus de Bordeaux e da Borgonha.

Com contida cerimônia, M. Sallet-Grilland exibiu venerandos cognacs da época de Napoleão Bonaparte e garrafas de safras memoráveis, que eram abertas em celebrações importantes ou para homenagear pessoas famosas.

Foi quando lhe ocorreu a infeliz idéia de perguntar pela garrafa mais valiosa de todas. O rosto de M. Sallet-Grilland se iluminou. Ele colocou um par de luvas brancas e apresentou uma empoeirada garrafa. Em seu rótulo, quase ilegível, se lia apenas: “Yquem, 1921”.

E murmurou, como em uma prece:

“Este é um Chateau d”Yquem da safra que produziu alguns dos Sauternes mais memoráveis. Ela foi confiscada pelos alemães, durante a invasão da França, na II Guerra Mundial. Esta é uma das garrafas que sobreviveram”.

E fazendo uma pausa, disse com um meio sorriso: “Talvez Monsieur gostaria de segurá-la por algum tempo?”.

Foi quando ele teve nas mãos, por intermináveis segundos, a garrafa mais preciosa de sua vida. Mas, assustado, logo a devolveu ao nervoso M. Sallet-Grilland que, com evidente alívio, a recolocou em seu pequeno cofre de cristal.

E ainda admirando a garrafa de reflexos dourados, prometeu a si mesmo nunca mais recusar vinho nos domínios da Familia Grimaldi. Mesmo que estivesse passado e com restos de rolha.

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