Por Braulio Tavares
Acho que muitos de vocês já presenciaram esta cena. Durante um seminário, simpósio, mesa-redonda ou seja lá que diabo for, há sempre um momento em que se faculta a palavra “para as perguntas da platéia”. Eu sempre achei essa premissa um tanto tendenciosa. E se a platéia, ao invés de perguntas, tiver respostas? E se, ao invés de pedir esclarecimentos aos luminares assentados na mesa, alguém tiver questionamentos a fazer, ou novas idéias a propor? Mas enfim, é o ritual, e coloca-se um microfone num pedestal perto do palco, ou circulando às mãos das mocinhas da produção, para que as pessoas façam suas perguntas. Um ou outro faz, e são respondidas. Mas aí alguém chega ao microfone e inverte a equação.
Ele começa sempre parabenizando o evento, parabenizando os participantes da mesa, elogiando a todos pelo brilhantismo de suas exposições… Aí depois fala um pouco de si mesmo, do quanto ele próprio perde noites de sono a pensar em todas aquelas questões importantes que estão sendo debatidas ali… Começam alguns murmúrios de impaciência, mas ele, impávido, começa a relatar um episódio que lhe ocorreu na juventude e que marcou toda sua vida a partir de então. Quando tentam interrompê-lo, pedindo que seja breve, ele assegura a todos que a narração desse episódio é essencial para a pergunta que fará a seguir; e há sempre algum participante da mesa que democraticamente aconselha, com um gesto, que é melhor “deixar o rapaz concluir o seu raciocínio”. Ele conta um episódio longuíssimo, fala em seguida do livro que acabou de lançar, menciona o endereço da editora, seu telefone, agradece e volta à sua poltrona.
Isso é igualzinho sabe a quê? À internet. A internet é uma espécie de microfone que de repente foi dis-po-ni-bi-li-za-do para uma platéia que há quinhentos anos, desde a invenção da imprensa por Gutenberg, estava acostumada a ficar apenas ouvindo, e julgando-se bem paga com isto. O mero direito de ouvir já era lucro. O privilégio duplo de saber ler e poder comprar livros era razão para festa, e não passava pela cabeça dos leitores que eles também poderiam ter seus 15 segundos de fama.
A maioria das pessoas que vai ao microfone nas mesas-redondas não tem perguntas a fazer nem respostas a distribuir. Quer apenas ver-se ali na frente e ouvir-se falando. O microfone lhe serve de espelho, no qual ele por alguns minutos sente-se pertencer ao mesmo mundo daqueles Olimpianos do palco. A internet, idem ibidem. Na internet, no blog, no saite, cada um de nós sente-se democraticamente escritor, porque o fato é que escreve, e tem todo o direito de pelo menos imaginar que é lido, mesmo que não o seja. (Quem publica livros imagina a mesmíssima coisa.) A internet dis-po-ni-bi-li-zou um microfone para alguns bilhões de pessoas. Está saindo besteira a dar com um pau, mas paciência, mais vale deixar as pessoas concluírem o raciocínio delas.

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