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A ironia da manchete

Por Antonio de Oliveira A ironia da manchete chamou-me a atenção, quando saia para a concentração da caminhada do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do …

Por Antonio de Oliveira

A ironia da manchete chamou-me a atenção, quando saia para a concentração da caminhada do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul em defesa da exigência de formação superior para o exercício da profissão e pela criação do Conselho Federal dos Jornalistas.

Não tenho dúvidas de que ela foi feita por um jornalista formado, que certamente nem vinculou o que escreveu à sua situação, de incerteza quanto ao futuro da profissão que exerce. “Para ser peão tem de ser especialista”, dizia a chamada, que levava a uma matéria sobre o trabalho na construção civil. Esta era a manchete do Diário Gaúcho dia 13 de agosto.

É neste contexto, de exigência cada vez maior de especialização para o exercício de qualquer atividade ou profissão que, de maneira absurda e irresponsável, setores do empresariado da área de comunicação social, em conluio com membros dos Poderes Legislativo e Judiciário, armam, mais uma vez, o cenário para buscar a desqualificação da atividade dos jornalistas. Manobram, em prejuízo de toda a sociedade, para que seja posto fim à exigência do diploma de formação superior para o registro e o exercício do jornalismo. Querem o fim da informação qualificada.

Nesta luta, o que mais me impressiona e decepciona como cidadão, é a desfaçatez com que tratam o tema. Inclusive entre alguns jornalistas. É claro que se você perguntar para qualquer empresário, ele vai dizer que não é contra a exigência do diploma. Ao mesmo tempo, alguns deles, que ocupam posições no Parlamento, encaminham e defendem projetos no Legislativo e ações no Judiciário contra a nossa categoria profissional.

E os argumentos que utilizam, então, são de um cinismo estarrecedor. Há sites na Internet que se dedicam a retransmitir as idéias deste movimento, assinados por pessoas que se dizem jornalistas e (pasmem !) até mesmo alguns com diploma. Como argumentos para justificar suas posições, dizem que a exigência do diploma é “reserva de mercado”, “ameaça à liberdade de expressão”, “jornalismo não se aprende na faculdade”, “jornalista nasce feito”, “jornalista é instinto”, “as faculdades não ensinam nada”, “a lei de regulamentação da profissão foi criada pela ditadura militar para retirar os verdadeiros jornalistas das redações”, e outros absurdos.

Quem acompanha a luta dos jornalistas brasileiros pela exigência do registro profissional e da formação superior para o exercício da profissão, sabe que ela começou décadas antes do golpe militar de 1964.

E quem faz comentários desqualificando e ignorando a luta dos jornalistas, mostra que não pode ser um deles, pois não tem respeito profissional e nem humano pelos seus colegas de atividade. Falam contra as faculdades, como se as de Medicina, Engenharia, Sociologia, Relações Públicas, e outras, fossem todas perfeitas e as de Comunicação Social as únicas com deficiência de ensino.

Para achincalhar mais com os que vivem e acreditam na profissão de jornalista e entendem seu verdadeiro sentido, criaram o tal de registro precário. Jornalista precário. No fundo, é isto que eles querem mesmo.

Profissionais precários, uma imprensa precária, para uma sociedade que se perpetue precária, para que seus lucros sejam cada vez mais crescentes, sem nenhum compromisso com o momento e nem com o futuro do País.

Em meio a esta confusão que está sendo criada, ouço de uma estudante de jornalismo que alguém tem que perguntar aos legisladores e juristas, se eles querem no futuro serem entrevistados por uma servente ou um flanelinha que o sindicato mandou que fizessem registro como jornalista precário, sem que saibam ao menos escrever direito os seus nomes – para mostrar o ridículo da situação que eles criaram – ou por um jornalista profissional com curso superior. Mas os jornalistas que não se iludam, pensando que depois desta idéia que eles defendem atualmente, de acabar com a exigência do diploma, se ela passar pelo Supremo, não virá mais nada. Depois de acabar com a exigência do diploma, deverá começar a defesa do fim do piso salarial. Afinal, quem não tem qualificação como vai exigir salário profissional ? O salário mínimo bastará. E a estabilidade para dirigentes e delegados sindicais, nem se falará mais.

Mesmo que não tenha sido intencional, a ironia daquela manchete e a sua publicação naquele dia, o indissolúvel otimista que mora dentro de mim garante que o autor teve a intenção de marcar sua presença e dar sua contribuição para a campanha dos jornalistas profissionais brasileiros.

Que lutam pela melhor qualificação da informação que levam todos os dias à sociedade, para que esta se informe, debata, torne-se uma massa crítica, e cresça para melhorar o nosso sentido de Nação independente e forte, com base na educação e na qualificação dos homens e mulheres que atuam em todas as áreas profissionais.

Por mais humilhados que tenham sido desde a invasão portuguesa, os habitantes desta terra não merecem mais esta. E este escriba assina aqui seu compromisso de ir até às últimas conseqüências nesta luta em defesa da profissão que abraçou há cerca de 40 anos, e que, na defesa dos seus princípios, sempre se manteve. Não pensem os que querem acabar com a profissão de jornalista que terão uma tarefa fácil. Mas para vencer esta batalha, nós precisamos do apoio dos milhares de pais e de estudantes que hoje se sentem frustrados, por todo o Brasil, e de toda a sociedade, da qual somos apenas humildes servidores. Nada mais.

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