A querida e talentosa equipe do portal Coletiva.net me encomenda um texto sobre… revisão. Daí pensa daqui, pensa dali, junta todos os 5 neurônios e lá vou eu discorrer sobre o estranho uso de ponto e vírgula em falas de personagens fictícios… Não! Peraí! Ainda não tenho muito subsídio pra abordar esse tipo de questão numa hora dessas, ainda mais em meio a uma pandemia mundial! O negócio é mudar o foco totalmente. Então lá vai…
Fiquei pensando na construção de um texto ficcional – muito embora não seja um especialista ou estudioso do assunto – e me deparei com aquela imagem que me persegue há muito tempo. Tenho pra mim que todo e qualquer texto se assemelha a um verdadeiro… quebra-cabeças. Você tem uma ideia de conto, romance, até de uma crônica e vai montando aos poucos as peças, juntando aqui e ali, testando, escolhendo, editando, substituindo, voltando atrás, até visualizar quase por inteiro a estrutura espinhal da narrativa que você quer – mentalmente, no computador ou em pedaços de guardanapo, como a prodigiosa Lygia Fagundes Telles faz, até que ela se torne palpável na página do livro/revista ou em uma postagem em rede social.
Devo ter chegado a essa estupenda conclusão com o trabalho diário de revisão. São mais de 290 livros que passaram por aqui e, em casos raríssimos, havia um mínimo reparo a fazer, poucas sugestões a oferecer, mas, na maioria, a revisão trabalhava dobrado não só metendo literalmente a colher no texto – corrigindo o básico, tornando a intenção autoral mais clara, evitando repetições, redundâncias –, como também dando pitacos os mais variados para que o texto ganhasse corpo, ficasse em pé e fruísse nas mãos do leitor.
Há autores cujas obras necessitam somente de alguns retoques, como é o caso de Rafael Guimaraens, Altair Martins, Carlos Urbim, Flávio Ilha, Daniel Feix, Ricardo Bueno, esse pessoal gabaritado e experiente, com carreira consolidada, que tem a mão ótima pra montar esse quebra-cabeças e transformar uma ideia original em texto pungente, com muita qualidade e inventividade, seja fruto de uma robusta pesquisa histórica, seja uma obra ficcional de primeira grandeza. Eles, entre outros, compõem a seleta equipe que o mestre dos mestres Luis Fernando Verissimo chamou de Gigolô das Palavras, em seu livro homônimo. O professor, escritor, estudioso da literatura e xará Luís Augusto Fischer me parece que corrobora com essa ideia ao afirmar que texto bom é aquele que pega o leitor pelo pescoço e só vai largá-lo no ponto final.
No entanto, para os demais, que têm uma certa escassez das inúmeras virtudes imprescindíveis na seara da escrita, a revisão funciona como um fundamental auxílio, e isso tem sido a prática cotidiana por aqui. São correções como uso de crase, dos porquês, pontuação, acento, concordância, regência verbal, além de sugestões, questionamentos, dúvidas, trechos confusos, padronizações, os quais são bastante debatidos, esclarecidos e até mesmo negociados com o aspirante a escritor, para que, por fim, a obra fique clara, coesa, fluente, com vistas a uma leitura prazerosa.
Há, ainda, em uma categoria à parte, os estreantes em literatura que nos arrebatam, nos impressionam, tamanha a maturidade de sua narrativa, domínio da linguagem, das cenas, dos personagens. É o caso de Manoel Madeira, em ‘Ausentes’, e Rochele Bagatini, em ‘Entre Outras Mil’, ambos da editora Diadorim, além de Priscila Bisker, que, com apenas 14 anos – embora escrita com 13 anos –, lançou uma obra policial de tirar o fôlego: ‘Um tiro. Um caso’.
O mestre, professor e escritor Luiz Antonio de Assis Brasil declarou, em um seminário sobre literatura, em algum ano do século passado, uma frase que faz muito sentido sobre o tópico ora em questão: “Às vezes não sabemos explicar se um livro (de ficção) é bom, mas sabemos quando ele é ruim”. A opinião dele não deve ser encarada como um balde de água fria aos iniciantes. Muito pelo contrário! Se você tem pretensão de começar uma carreira literária, então que aprenda… escrevendo, reescrevendo, lendo, relendo, limpando, cortando, ouvindo opiniões, corrigindo, retocando, mesmo que, para isso, precise arcar com o custo de um profissional da revisão.
É como se você entendesse um pouco de mecânica de automóvel, mas não tem tempo nem mesmo maquinário pra trocar óleo, regular motor, ou até descobrir de onde vem aquele incômodo barulhinho. O que você faz? Manda para um mecânico de sua confiança. E ele que se vire pra fazer o conserto, tenha você um Fusca ou um Audi A3.
Luís Augusto Junges Lopes é sócio-diretor da Press Revisão Assessoria em Comunicação.

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