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A paixão de Huang Jiangxiang pelo futebol italiano

Por Sérgio Capparelli Huang Jianxiang é um comentarista de futebol como todos os outros do mundo. Quer dizer, não existe no futebol essa entidade …

Por Sérgio Capparelli

Huang Jianxiang é um comentarista de futebol como todos os outros do mundo. Quer dizer, não existe no futebol essa entidade ou expressãotodos os outros no mundo” porque cada um deles se acredita único. Eles se parecem porque lhe dizem, olha, cara, aqui nós somos objetivos e você pode torcer para um time de futebol de Porto Alegre, de Buenos Aires, de Shanghai ou de Beijing, mas por favor, deixe suas convicções fora dos  comentários e narre com um certo distanciamento, para não ferir a susceptibilidade de nossos telespectadores.

Mas, às vezes, quando o telespectador assiste a um jogo que está sendo narrado, consegue enxergar nos olhos do narrador demônios desenfreados, prontos para tudo. São terríveis esses demônios e todo torcedor os liberta na hora do gol ou da raiva, erguendo bandeiras, gritando até mais não poder ou mergulhando em catatonia depois do gol adversário. Mas, todos sabemos, o narrador ou comentarista sabe mantê-los sob controle, porque narrador é narrador e não qualquer um, e por isso mesmo abaixa os olhos repetidas vezes durante o jogo, quase envergonhado, com medo de que os telespectadores identifiquem essas criaturas que ele carrega, controla e  pajeia.

O erro do Huang Jianxiang, do canal 5, da Rede Central de Televisão da China, foi o de libertar todos os demônios de sua paixão pela Itália no jogo contra a Austrália, pela Copa do Mundo. Na segunda-feira última, ele ainda fazia como lhe tinham ensinado na escola e no jornalismo. Você, cara, você não é você nesses momentos, você é o Narrador. Você tem dentro de seus olhos, os olhos dos telespectadores; dentro de seu ouvido, os ouvidos dos telespectadores; e na sua voz, a verdade dos telespectadores. E esses, chineses,  não foram  à Alemanha. Estão acordados até agora,  tarde da noite. Ensine a eles como se manter impassível, mesmo se as labaredas estejam lhe saindo pelos olhos.

Era isso que pensava fazer Huang Jianxiang quando Grosso ou o Totti pegavam a bola, quando se aproximavam do gol, quando driblavam ou quando levavam a Esquadra Azzurra para a frente. Tudo ia muito bem. Até que, bem perto da meia-noite, os telespectadores começaram a observar mudanças súbitas no tom de voz de Huang Jianxiang, nos gestos, na sua personalidade, enfim. Eram os demônios da paixão abrindo caminho na  selva escura da objetividade.

Perto da meia-noite e meia, os demônios mais ousados e mais impertinentes apareceram na forma de tiques nervosos, no estremecer de pálpebras, em upper-cut de boxeador que Huang Jiang desferia no ar, se Totti chegava perto do gol da Austrália, ou na voz cava, de filme de horror, se os australianos contra-atacavam. Mas até então era uma luta de igual para igual. A tristeza da sua voz quando os australianos estavam com a bola era compensada pelos grãos finos de euforia no momento em que essa mesma bola era recuperada pelos italianos. O estilo invernal de um contra-ataque de Melbourne, Adelaide, Sidney ou Alice”s Fountain tinha resposta na primavera italiana de Milão, Veneza, Trieste, Florença ou Roma. Taco a taco e mano a mano. O desequilíbrio começou quando Fábio Totti foi derrubado e Huang Jianxiang soltou 127 demônios pelo canto esquerdo da boca, que percorreram a tela da televisão em velocidades incríveis, em todas as direções, gritando é pênalti, é pênalti, é pênalti, enquanto os demônios de seus olhos entoavam ameaçadores, vão ver agora, cabeças-de-bagre!

Imediatamente, três exércitos de demônios da paixão (I Exército, sediado em Beijing; II Exército, sediado em Cantão; e IV Exército, sediado em Shanghai) lançaram-se ao ataque contra os australianos, gritando ao mesmo tempo “é gol, é gol, é goooooooooool”, cangurus do espaço sideral, e esses demônios pularam em cima da mesa e dançaram uma dança de Tonga, selvagem, feroz e bem sacudida.

Não era preciso saber chinês para entender o que acontecia  porque os demônios da paixão falam de forma idêntica em qualquer lugar, mesmo se em  futebol não existe a expressãoforma idênticaouqualquer lugar“, porque as formas são sempre únicas e os lugares determinados. E não era preciso também saber chinês para descobrir, no dia seguinte,  que os demônios tinham ido embora da mesma forma que tinham chegado, deixando um Huang  Jianxiang perplexo, a dizer: “Depois de rever o jogo hoje de manhã, sinto que meus comentários estavam carregados de sentimentos pessoais, o que não é conveniente no caso do jornalismo. Peço desculpas sinceras aos telespectadores por ter agido assim“.

A Rede Central de Televisão da China, por seu lado, na busca de um jornalismo esportivo objetivo e isento, prometeu entrevistar pelo menos uns 500 demônios da paixão, caso os encontre, para que esse episódio seja divulgado de maneira equilibrada. “Os demônios“, disse o diretor de Esportes no telejornal,  também têm o direito de fornecer sua versão de acontecimentos tão bizarros. E viva a Itália!”

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