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A palavra e a bola

Por Maria Wagner A notícia diz que “o superávit comercial do Japão cresceu pela primeira vez em quase um ano e meio, sugerindo que …

Por Maria Wagner

A notícia diz que “o superávit comercial do Japão cresceu pela primeira vez em quase um ano e meio, sugerindo que a economia do país recebe sustentação da demanda externa”. Pena que outra ajuda recebida do exterior, o brasileiro Zico, não esteja produzindo o mesmo efeito no futebol que a seleção japonesa levou à Copa do Mundo na Alemanha. Em Portugal, Felipão é mais feliz.

Mas verdade seja dita: não entendo bulhufas da bola rolando sobre os gramados. Ou um pouquinho mais, desde que comecei a ouvir os motoristas de táxi da cidade, moderados na expectativa de mais uma vitória. Por que não embarcaram, como se todas as favas já tivessem sido contadas, na onda do “Brasil rumo ao hexa”? Sei lá. De uns escuto que o culpado do chove-e-não-molha da seleção brasileira em campo é o técnico, Parreira, principalmente porque tirou Ronaldinho Gaúcho da posição em que conseguiu o título de melhor jogador do mundo nos dois últimos anos. Será? Não sei. Como disse, entendo de futebol apenas um pouquinho mais do que bulhufas. Mas Ronaldinho Gaúcho, que brinca com a bola e faz a alergia da torcida do Barcelona, esse não tem comparecido aos estádios da Alemanha.

Então dá para admitir que a saudade de Luis Felipe Scolari, o Felipão, esteja começando a germinar em corações torcedores. Principalmente porque sua equipe está mostrando bons resultados na Alemanha. Talvez nem seja o caso de apostar nisso, mas não custa brincar com uma possibilidade: e se a taça, ao invés de vir para o Brasil, tomar o rumo de Portugal? Embora não acredite que Scolari pense em dar um troco “com luva de pelica” aos que se empenharam na campanha para desacreditá-lo antes da Copa de 2002, garantir a vitória para Portugal agora certamente teria, para ele e também para muitos de seus fãs, o gosto do “nada como um dia depois do outro”.

Mas repito: só entendo de futebol um pouquinho mais do que bulhufas. E a superposição de profissionais na cobertura dos acontecimentos tem me ajudado em nada. Por que tanta gente para dizer a mesma coisa? Pelo mesmo motivo que impede Parreira de deixar Ronaldo, o fenômeno, no banco: o futebol virou indústria, audiência, patrocínios milionários. Também por isso, Christiane Pelajo reinventa no Jornal da Globo as informações que Fátima Bernardes deu no Jornal Nacional; e Pedro Bial – na falta de notícias – vem ensaiando abordagens filosóficas e poéticas sobre o que vê em campo. Patético. Pior do que isso, só a entrevista em que levou Zagallo às lágrimas.

Portanto, além da bola, há bobagens rolando nessa Copa. Algumas, por conta da desinformação: na trilha do ufanismo – “olha como somos modelo para o mundo” – um repórter de jornal impresso contou que o amor dos brasileiros pela telenovela está contagiando os alemães. Como exemplo, citou uma versão de Betty, a Feia, produção importada de algum país latino-americano que fez sucesso na grade da Rede TV! em 2005. Outro acreditou que tem motivos para se queixar, porque o acesso aos telefones não estava simplesmente liberado para ele, de graça, por ser jornalista de outro país. “Aqui se cobra tudo”, disse. No Brasil, não? A palavra é como a bola. Voluntariosas – algo a ver com sua geometria? – elas nem sempre balançam a rede.

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