Por Sérgio Capparelli A Ponte Marco Polo, em Beijing, não tinha esse nome, antes da vinda de Marco Polo. Quando ele veio, ainda não era Ponte Marco Polo. E depois, também não. Mas os ocidentais deram o nome de Marco Polo à ponte, porque foi por ela que ele entrou na cidade.
Muitos historiadores consideram que Marco Polo inventou no seu livro uma entrada em Pequim pela Ponte Marco Polo. Ele conta, por exemplo, que sobre o rio existe uma ponte de pedras finas, tão finas que existem poucas no mundo. E fala também dos 21 arcos da ponte. Mas a ponte não tem 21 arcos. Tem 11. E as pedras não são finas. E se ele não passou, Ponte Marco Polo é uma homenagem à sua não-passagem pela ponte.
Trata-se, então, seguindo Marco Polo, de uma ponte imaginária, e sendo assim ela pode ter 21 arcos. Ou 40. Ou 551. Ela pode ter quantos arcos quiser que ninguém tem nada a ver com isso. Mas essa, a Ponte Marco Polo, não tem. Quer dizer, tem e não tem, dependendo da viagem que aconteceu ou não aconteceu, em um mundo realmente de mentira.
Um dos momentos mais emocionantes das Cidades Invisíveis de Calvino é quando Marco Pólo, que já descreveu todas as cidades possíveis e imaginárias, diz ao Kublai Kahn, pronto, agora não tem mais cidades para descrever. Então, o Kublai Kahn, que o ouvia atentamente, diz, tudo bem, agora eu vou descrever as cidades e você vai me dizer se elas existem ou não, se passou por alguma delas, se pelo menos as imaginou.
Kublai Kahn sabia que Marco Polo estava criando cidades invisíveis. E então, de repente, ele se põe no lugar do criador e descreve igualmente cidades possíveis e impossíveis, mas as suas. Claro, o tema do livro são as cidades imaginárias. Mas, no nosso caso, são as pontes imaginárias. Digamos, por exemplo, que a Ponte Marco Polo foi construída em 1192 e tem 501 leões esculpidos ao longo de seu percurso de 260 metros, cada leão diferente do outro, seja pela posição da cabeça, por certo enfeite ou pelo que traz sob as patas.
Ora, se o arquiteto da ponte passou dias e noites projetando leões que se transformam de forma ininterrupta, a partir da perspectiva de quem os vê ou da perspectiva do leão que nos vê, por que a ponte não poderia ao mesmo tempo chamar-se Lugou ou Marco Polo ou outro nome qualquer?
O imperador Qialong, por exemplo, não se preocupou com a ponte, com o nome da ponte ou com os leões, mas com a lua pela manhã sobre a ponte, e escreveu um poema em letra cursiva sobre uma das estelas na cabeceira da ponte. O poema chama-se Lugou Xiaoye, ou Luar sobre a Ponte Lugou de Manhã, e mostra que, para ele, a própria ponte não tinha importância, porque ela apenas servia de suporte para seus versos.
A ponte estendia-se sobre o rio Lugou, descrito como um rio “violento, que corre com extraordinária rapidez“. Pois bem, chegue à ponte e olhe para baixo. Não existe nenhum rio, apenas algumas pedras e grama. Alguém pode dizer, antes existia. Se existia, é mais uma prova de que estamos tratando aqui de fenômenos instáveis, sejam rios ou sejam pontes ou sejamos nós, que falamos sobre pontes que não existem. Além do mais, os antigos habitantes de Yanjing chamavam esse rio de Lugou e outros de Rio Heishui ou Rio das Águas Negras, sem imaginar que mais tarde correria debaixo da ponte apenas grama verde.
Yanjing não existe mais, pois deu lugar a Beijing. Mas me explica, o que significa dar lugar? Se não existe mais Yanjing e só existe Beijing que para outros é Pequim, por que os guias turísticos dizem que a ponte Lugou ou Marco Polo está situada na antiga Yanjing? Bravo! Esse é um reconhecimento de que existe uma Yanjing dentro de uma Beijing e que existe uma cidade dentro de uma ponte, cujos habitantes são 501 leões todos eles contemplando das balaustradas de mármore um rio inexistente.
Sejamos francos, essa ponte não existe.
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