A quantidade de sofistas no mundo empresarial

Por Gil Kurtz, para Coletiva.net

Defendo o livre mercado. Claro que não desde sempre. Quando jovem, estudei no Julinho e, naquela época, simpatizava com as ideias socialistas e as defendia com unhas e dentes. Endosso a tese que todo jovem deve viver com o conceito anti-establishment. Não precisamos ir longe pra constatar isso. Basta ver as relações entre pais e filhos.

Passada essa fase de "jovem", em 1986 iniciei minha jornada de empreendedor e já no final daquela década, quando passei a frequentar a Associação dos Jovens Empresários de Porto Alegre (AJE/POA), comecei a rodar um novo software: "Empresa livre, nação forte". Era o slogan da entidade. Depois disso, avancei em meu modesto embasamento liberal quando, a convite do amigo André Burger, entrei para o Instituto de Estudos Empresariais (IEE).

Essa é apenas uma introdução para avançar num tema que tem sido tão caro para muitas empresas de todos os tamanhos: a ética. Claro que não é de hoje. Hoje, mudou apenas um detalhe: o mundo digital socializou (ops, recaída de ex-juliano) a informação em todas as perspectivas - conhecimento, inovação, política, economia, entretenimento e também nas práticas antiéticas das marcas ou de seus dirigentes ou empresários.

Nesse campo, lembro-me de uma das obras do notável filósofo Michael Sandel: "O que o dinheiro não compra. Os limites do mercado" (meus amigos liberais vão me excluir). Nesse tema, o ano fecha com dois exemplos que tentaram rasgar a concepção referida na obra: Mark Zuckerberg e Carlos Ghosn.

O pouco que conheço do tema está baseado em algumas obras que li e nos papos com outro amigo e doutor em Filosofia, Cezar Roedel, mas os dois grandes "líderes empresarias" me fazem lembrar os sofistas. Sim. Os sofistas tinham por ética algo também relativo, mesmo dentro de uma mesma sociedade. Enquanto para alguns era correto se fazer uma determinada coisa, para outros; não era.

O primeiro citado carrega consigo, desde o início, contestações quanto à conduta ética com seus primeiros sócios. Não bastasse isso, o desafio desse CEO é corrigir uma série de danos que sua plataforma possibilita. Como ele mesmo se manifestou no início deste ano: sua missão em 2018 é consertar a grande lista de problemas do Facebook, incluindo a interferência estrangeira na plataforma, casos contínuos de assédio e ameaças potenciais à saúde mental de seus usuários.

O Facebook esteve sob amplo escrutínio em 2017 em uma série de questões, incluindo os russos, que compraram anúncios com a intenção de influenciar as eleições de 2016 nos EUA. Seus recursos de segmentação de anúncios também permitiam que as empresas encontrassem clientes em potencial usando termos raciais discriminatórios e depreciativos.

O segundo citado, Carlos Ghosn, preso no início da semana passada, sempre foi venerado por suas competências em várias frentes. Diga-se de passagem, que merecidamente. Graças a ele, Nissan e Renault avançaram e se transformaram no quarto maior grupo automobilístico do mundo. Ele conquistou tanto reconhecimento, que chegou a ser cotado para ser presidente do Líbano. Se para as marcas ele fez muito nesses anos todos, para os acionistas da Renault, em um dia, causou uma perda de 13% no valor das suas ações. Já o Facebook perdeu, em duas horas, US$ 151 bilhões.

Você deve estar se perguntando: estou no portal Coletiva.net e o "queco" isso tem relação com o mundo da propaganda? Aqui entre nós e os milhares de leitores dessa plataforma: tudo, pois, assim como eles lideram marcas, também podem causar sérios prejuízos para as mesmas. Não pense que esses são exceções no mundo empresarial. Bem pertinho de você há gestores e empresários que vão à missa (ou a outros cultos) todo domingo e são tão sofistas como os dois citados.

Gil Kurtz é diretor da Vossa Estratégia e Comunicação.

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